sábado, 6 de agosto de 2011

Goethe.

Dei de ombros e concordei. "Mas, meu caro", prossegui, "mesmo aí há algumas exceções. É verdade que o roubo é um crime; mas e o homem que, para livrar a si e aos seus de morrer de fome, vai e comete um roubo; merece compaixão ou castigo? Quem lançará a primeira pedra ao marido ultrajado que, com justa cólera, abate uma mulher infiel e seu vil sedutor? E a essa moça que num momento de delírio se abandona às alegrias arrebatadoras do amor? Até mesmo as nossas leis, essas senhoras pedantes com sangue de lagarto, se deixam comover e contêm suas sanções."


"Isso é bem outra coisa", replicou Alberto, "porque um homem que se deixa arrastar por uma paixão violenta perde a faculdade de refletir e deve ser considerado como um ébrio, como um demente.""Oh, aí estais vós, os razoáveis!", exclamei, terminando num sorriso. "Paixão! Embriaguez! Demência! E permaneceis tão impassíveis, tão indiferentes, vós, os homens morais! Censurais o bêbado, detestais o insensato, passais ao largo como o padre e agradeceis a Deus como o fariseu por não vos ter feito semelhantes nem a um nem a outro. Mais de uma vez me embebedei, minhas paixões nunca estiveram longe da demência, e não me arrependi de nenhuma das coisas que fiz, pois graças a elas pude compreender, por experiência própria, como todos os homens extraordinários que levaram a cabo alguma coisa grande, alguma coisa reputada impossível, desde sempre foram declarados ébrios e dementes... Mas também na vida cotidiana resulta algo intolerável ouvir todo mundo gritar, sempre que alguém pratica um ato um tantinho mais livre, honrado, inesperado: 'Aquele homem está bêbado, está louco!' Tende vergonha na cara, vós, os pacatos! Tende vergonha na cara, vós, os discretos!""Essas são mais algumas das tuas extravagâncias", disse Alberto. "Exageras tudo e, por certo, cometes pelo menos o erro de aceitar o suicídio, que é do que estamos falando agora, como se fosse uma grande ação, quando não é nada mais do que simplesmente fraqueza. Pois, para ser sincero, é mais fácil morrer do que suportar com firmeza uma vida de tormentos."Estava a ponto de terminar com a conversa, pois nada me faz perder tanto as estribeiras como ver alguém me espicaçando com lugares-comuns dos mais insignificantes quando estou falando do fundo de meu coração. Mas contive-me, já ouvira aquilo tantas vezes e tantas vezes me irritara, que repliquei com certa vivacidade: "Chamais a isto de fraqueza? Peço-te que não te deixes enganar pelas aparências. Um povo que geme sob o jugo insuportável de um tirano, ousareis tachá-lo de fraco quando enfim se levanta e rompe os grilhões? Um homem que, no susto de ver as labaredas consumindo sua casa, distende os músculos e levanta com facilidade que a sangue-frio mal poderia mexer; um outro que, encolerizado por um ultraje, ataca seis homens e os subjuga, seríeis capaz de chamá-lo de fraco? E, meu caro, se o esforço é força, por que a energia extrema seria o contrário?

(...)

"A natureza humana", prossegui, depois de breve pausa, "tem seus limites; pode suportar até certo ponto a alegria, a mágoa, a dor, mas passando deste ponto ela sucumbe. A questão não é, pois, saber se um homem é fraco ou forte, mas se pode suportar o peso dos seus sofrimentos, quer morais, quer físicos. E eu acho tão espantoso que se chame de covarde ou de desgraçado àquele que se priva da vida, como acharia impertinente tachar de covarde ao que sucumbe a uma febre maligna''

''Paradoxo! Aí há um paradoxo!'' Exclamou Alberto.

Os sofrimentos do jovem Werther - Goethe

Nenhum comentário: