sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Budapeste.


''E a mulher amada, de quem eu já sorvera o leite, meu deu de beber a água com que havia lavado sua blusa.''



Eu era um jovem louco e saudável quando adentrei a baía de Guanabara, errei pelas ruas do Rio de Janeiro e conheci Tereza. Ao ouvir cantar Tereza, caí de amores pelo seu idioma, e após três meses embatucado, senti que tinha a história do alemão na ponta dos dedos. A escrita me saía espontânea, num ritmo que não era meu, e foi na batata da perna de Tereza que escrevi as primeiras palavras na língua nativa. No princípio, ela gostou, ficou lisonjeada quando eu lhe disse que estava escrevendo um livro nela. Depois deu para ter ciúme, deu para recusar seu corpo, disse que eu só a procurava a fim de escrever nela, e o livro já ia pelo sétimo capítulo quando ela me abandonou. Sem ela, perdi o fio do novelo, voltei ao prefácio, meu conhecimento da língua regrediu, pensei até em largar tudo e ir embora para Hamburgo. Passava os dias catatônico diante de uma folha de papel em branco, eu tinha me viciado em Tereza. Experimentei escrever alguma coisa em mim mesmo, mas não era tão bom, então fui a Copacabana procurar as putas. Pagava para escrever nelas, e talvez lhes pagasse além do devido, pois elas simulavam orgasmos que me roubavam toda a concentração. Toquei na casa de Tereza, estava casada, chorei, ela me deu a mão, permitiu que eu escrevesse umas breves palavras enquanto o marido não vinha. Passei a assediar as estudantes, que às vezes me deixavam escrever em suas blusas, depois na dobra do braço, onde sentiam cócegas, depois na saia, nas coxas. E elas mostravam esses escritos às colegas, que muito os apreciavam, e subiam ao meu apartamento e me pediam que escrevesse o livro na cara delas, no pescoço, depois despiam a blusa e me ofereciam os seios, a barriga e as costas. E davam a ler meus escritos a outras colegas, que subiam ao meu apartamento e me imploravam para arrancar suas calcinhas, e o negro das minhas letras reluzia em suas nádegas rosadas. Moças entravam e saiam da minha vida, e meu livro se dispersava por aí, cada capítulo a voar para um lado. Foi quando apareceu aquela que se deitou em minha cama e me ensinou a escrever de trás para diante. Zelosa dos meus escritos, só ela os sabia ler, mirando-se no espelho, e de noite apagava o que de dia fora escrito, para que eu jamais cessasse de escrever meu livro nela. E engravidou de mim, e na sua barriga o livro foi ganhando novas formas, e foram dias e noites sem pausa, sem comer um sanduíche, trancado no quartinho da agência, até que eu cunhasse, no limite das forças, a frase final: e a mulher amada, cujo leite eu já sorvera, me fez beber da água com que havia lavado sua blusa.


Chico Buarque, Budapeste. P. 38-40
Romance, Companhia das Letras.

9 comentários:

Anônimo disse...

na moral: vc tem ótimas ideias, + se qer mesmo levar esse blog pra frente escreva sobre assuntos mais importantes, ñ uma porrada de poemas e depoimentos de sua vida qe ñ faz nenhum sentido e interesse pra qem tá lendo

boa escritora
vlw

Jénny disse...

#defesa- Vinicius de Moraes escrevia sobre os amores de sua vida, acho que muita gente se interessou não?! ops! AIUSIOUAS vou mandar esse texto pra minha irmã, ela adora o Chiquinho.

giu batista disse...

ao anônimo, meu agradecimento pelo conselho. De uns tempos para cá, realmente, eu ando escrevendo menos críticas e expondo mais meu lado romancista. (que na verdade é uma merda, hahaha) Mas é questão de fase e eu tô satisfeita com isso. Não são poemas ou prosas pessoais, são aquilo que eu quero passar aqui, simplesmente. O espaço é meu e eu quero me expressar dessa forma, pelo menos por enquanto.

Porém, muito grata.

e Jénny, valeu pela defesa! UAHSUHSUSHSU :XX mas vamos combinar que nem tem como comparar Vinícius ou Chico com o que eu faço por aqui. É até um crime! UAHSUSHSUHASUSH:X brincadeira. :)))

beijão!

Liz Gimenez. disse...

SIUAOHSAIOHSIOAHS. Eu concordo e descordo.
Os maiores fizeram assim. Escrever o que sente interessa sim, a muitos, dai cabe a você se identificar ou não. É impossível gostar de todas as músicas de um CD da sua banda/cantor favorito.
Adoro seus textos sua modesta. ;*

giu batista disse...

oown, Liz. *-*

vc sempre tão fofa!

:**

Lego disse...

Essa é uma das partes que mais gosto de todos os livros dele!
Ótimo seu blog! Lerei os arquivos assim que tiver tempo.

giu batista disse...

own! muito meigo de sua parte, moço! *-* obrigada pela consideração.

Kathleen disse...

Boa noite! Adorei seu blog e seus posts, você é bem leterária, e intensa no que escrevi!
PARABÉNS!
estou sgeuindo você ok?
beijos.

giu batista disse...

oh, obrigada Kathleen! *-*
estou seguindo-a também!

beijão!