sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Coringa.

Eu ando com vontade de rasgar as folhas da minha velha agenda que me acompanha por todos esses anos de sol a sol. Sinto a extrema necessidade de me desfazer do meu passado, dos detalhes no rodapé dessa vida, das lembranças que só um papel pode eternizar.

Eu queria queimar tudo para me sentir mais nova uma outra vez, sem marcas do tempo, como se tivesse nascido ontem. Queria ser ainda um embrião frágil e puro, sem maldade, sem supostas verdades, sem ética e moral, tudo isso para recomeçar do zero. Renascer sem medo.

Pretendo escrever uma nova história em entrelinhas num mangá qualquer para me tornar o super herói inabalável das icógnitas. Imagine o Coringa. Imagine o Coringa num mangá. Imagine o Coringa num mangá em entrelinhas.

Agora imagine como seria se eu me tornasse alguém novo a cada vez que rasgasse o passado, nem tão distante, mas passado. Múltiplas personalidades a cada pedaço de papel ao chão, um espelho espatifado na memória dos amigos. Raciocine comigo: e se eu conseguisse realizar ao menos uma das fantasias de vilão ou herói por dia? Que estrago.

Mamãe poderia ter me dado caráter, além de educação.
Mamãe poderia ter me deixado sonhar, mas não.

Imagine se mamãe tivesse realizado cada vontade minha; talvez hoje eu não teria com o que brincar, não teria nenhum personagem para criar e viver por esses dias de tédio.

Mamãe, sempre tão sábia.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Um caso de amor que não é do Érico Veríssimo.

Liberdade é um conceito muito vago para discussão. Ela não está embasada em leis formuladas pelo homem, mas na concepção de mundo de cada indivíduo e na sua respectiva condição.

Quando estou de frente com a liberdade me sinto em branco. Estou tão acostumada em receber diretamente forças externas que quando sou o foco, não tenho menor reação. Meus medos e fraquezas afloram entre meus dedos e escorrem por todos os lados. A cor cinza é uma fatalidade.

A questão sou eu e eu mesma. Eu e meu espelho. Eu e meu ego avassalador e explosivo que não engole nem mastiga ninguém. Começo a pensar que cansei da vida. Minha vida que agora é um eterno suicídio em tentativas frustradas de morte e dores pungentes num estado imutável de embriaguez.

Eu e uma liberdade que não está no mundo nem em mim. Ela está em cada ponto da cidade procurando um corpo vazio e sem sal, como o meu, dentro de um corpo menos fino e mais robusto, em qualquer ponto da cidade, esperando por mim.

Eu e essa liberdade.. um caso de amor que nem Érico Veríssimo saberia por em palavras.

sábado, 23 de outubro de 2010

''LIBERDADE DEMAIS SUFOCA''

Sempre achei que no dia em que eu encontrasse o conceito de liberdade absoluta, seria feliz. Todo aquele discurso sobre uma utópica reforma ética e moral, os valores cheios de sentindo e verdade no mundo de cada um, a lembrança do ''do it yourself'' e ''eu quero ver o oco'', os atos sem consequências que ninguém precisava se importar ou ver, tudo me veio como um tridente de Netuno rasgando o meu peito depois que dei de cara com a liberdade.

Essa liberdade é cruel, abusiva e burra. Extremamente burra! Porque eu procurei por ela por todos os dias da minha vida e quando a encontro, ela me quer mal demais. Ela me encarou de frente, disse que não se importava com o tempo que levei a vagar sozinha de esquina em esquina procurando-a, querendo-a. E isso foi um tiro na minha testa, uma rasteira que eu não esperava.

Essa liberdade brincou com a minha cara todas as vezes que atravessou minha vida e fugiu. Chutou minha bunda inúmeras vezes para mostrar que eu sou fraca demais e não consigo contê-la. Cuspiu em mim, xingou alto e eu não quis escutar. Não quis ficar para presenciar tanta humilhação. Mas quando eu me escondo dela, ela me acha. Quando eu procuro ela, ela some. Ela quer é fuder comigo que eu sei.

Da última vez que ficamos cara a cara ela me disse com os olhos: tenha calma e eu serei sua. E eu tive calma. E ela foi minha. E me arrasou de uma maneira sem igual. Descobri, então, que não nasci para ela.

Descobri que não nasci para liberdade depois de uma longa caminhada.
Descobri o inadimicível.

Ela não é aquilo que eu queria. Me enganei esse tempo todo ao idealizar o corpo e a alma liberta e feliz. Quando encontrei com algo que não pode partir sem mais nem menos com toda a liberdade, eu não consegui lembrar dos meus antigos valores. Eu não podia praticar o desapego com aquilo que era primordial para mim. Não podia me desfazer, nem posso. É um estado eterno um tanto quanto mutável. É minha outra face tomando forma e assustando o ego.

Com que cara eu posso dar adeus ao espelho e me enxergar nos olhos da alma de outro? E os meus discursos.. e meus valores.. é tudo uma confusão dentro do meu mundo. O passado e o futuro se enfrentam dentro da minha mente com a finalidade de me fazer escolher um rumo. O que eu quero versus O que eu sou.

E eu aceito, calo e assisto tudo como uma comédia romântica porque sou criança demais para negar um doce.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

''E que seja eterno enquanto dure'' ?


É normal cruzar com o inesperado e viciar nele? A gente gosta daquilo que é inusitado, que dá trabalho. Eu, mais ainda.

Eu. Eu e minhas impossibilidades.
Eu. Eu e minha cabeça dura.
Eu. Eu e minha ressaca moral.

Tão Eu, que só piso no chão para meus pés chegarem até ele.
Tão ele, que só pisa no chão para me esperar no outro lado da rua.

A gente, tão a gente, que a gente se esquece do resto do mundo em qualquer fim de tarde.
E a gente se leva assim, a gente se gosta assim, se encara assim.

E assim a gente passeia pelo tempo.
E que seja eterno enquanto dure.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Não sei gostar de ninguém.


Você me decompõe em partículas não tão mais indivisíveis e depois, como se fosse normal, segue meus passos, reclama dos meus atos, tenta aproximar-se dos amigos para saber do meu dia-a-dia e chega até à, ''acidentalmente'', esbarrar inúmeras vezes para trocar palavras comigo.

Você diz que enjoou da minha cara, da minha alma, mas não larga a manha de me ter por perto. Busca uma comoção absurda nos meus olhos, e eu digo o quanto é bizarro, porque é impossível, é inaceitável, eu me submeter a você.

Você insiste, observa de longe, procura na multidão, me faz tropeçar nas próprias pernas de nervoso, tenta me corromper com propostas baratas de bar de estrada e eu fico na corda bamba, prestes a me atirar. (para você ou por você? eis a questão)

Eu queria aprender a confiar. Eu gostaria de acreditar na possibilidade de você me segurar, depois que eu me jogar.

Você espera que uma conversa de 5 minutos num café imundo da cidade vai convencer meu coração?

Confesso que vai.

Mas ainda bem que a cabeça raciocina ao meu favor e não permite que você me enlouqueça com um sorriso.

Nem perseguições no parque, nem flores na porta do apartamento, nem recados com o vizinho, nem café amargo, nada me instiga a recomeçar. Peço a todos astros que você desista dessa idéia maluca de me procurar, de mentir que ama. Porque nós sabemos que é tudo ilusão. Nós temos a plena certeza de que isso é uma utopia, é viver na irrealidade, é um outro universo. Amar é um mito, então.


créditos fotográficos:
intextualidade:

domingo, 3 de outubro de 2010

Fotos.


Eu pego um papel e um lápis verde para desenhar seu nome com a minha melhor letra, aquela grande e pintada com delicadeza, como se fosse tatuagem. Eu suspiro ao fazer flores coloridas a partir da sua primeira letra e te imagino vendo essa cena, rindo do meu riso bobo só por escrever seu nome mil vezes seguidas.

Eu fecho os olhos e volto no tempo para alcançar sua boca e mexo os cabelos para simular a sensação de ter suas mãos comigo. Eu lembro do toque dos seus lábios finos beijando meu rosto, meus olhos, minha testa suada, meus seios pequenos. Sinto a luz do sol na nossa pele e fico vermelha ao pensar que você pode está notando minhas pernas que não sabem onde ficar, minhas mãos que não sabem por onde passear. Depois você me ensina que tudo isso é bobagem e que eu vou aprender com o tempo, que é natural.

Num instante mudo de temperamento e você pergunta o que diabos acontece na minha cabeça. É que eu cismo em achar que você é cruel comigo, que você exige demais das minhas possibilidades. Eu sou tão insegura e você não tem menor pena disso, não é verdade? Mas eu relaxo. No fim, saber que tenho você me faz esquecer todo o drama e com graça, seus olhos cor do sol fixados nos meus convencem qualquer anseio. Minha cabeça volta ao normal, tudo melhora e eu vejo que não é o fim, por que você sempre sabe o que me dizer.

Eu brinco com sua boca bem delineada tremendo, pingando sangue e saboreando meu queixo. Tiro fotos mentais de cada ângulo que compõe seu riso. Eu tiro fotos para guardar na memória o quanto você me fez feliz. Eu só tiro fotos para ficar assim, voltando no tempo quando sinto saudades do seu endereço.

Só preciso te ter dentro de mim e por isso, lembro.


créditos fotográficos:

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

É normal.

Cada fim é um recomeço e eu não me importo em voltar ao zero porque não é perca de tempo. Refaço toda a verdade, invento maneiras mais simples de me sentir bem e assim, chego até a pensar que seja uma fase de aprendizado.

É normal.

Encaro com naturalidade as idas e vindas dos meus sonhos, as suposições absurdas que faço sobre como tudo deve ser e me conformo com a regeneração dos desejos que afloram em mim. Eu viro a mesa, eu jogo um novo jogo de cartas com as regras de qualquer um.

É normal.

Tomo ciência de que preciso continuar, apesar do ''bem me quer, mal me quer'' que insiste em tirar minha sorte da roda. Nem importa. De qualquer forma eu sigo em frente, a fim de apostar mais alto.

E isso tudo é normal.