sábado, 25 de setembro de 2010

Cigano.

Eu fico na ponta do abismo todos os dias, esperando o vento me empurrar mais um pouco para o lado de lá. Nessa fração de segundos, nesse momento tão íntimo, quando eu me sinto indo para o horizonte o vento trava para o desespero me tomar. Sinto-me então indecisa, sem saber se fico, corro, me jogo de vez, espero outro sopro, desisto da idéia absurda.

O vento brinca com meu cabelo, faz cócegas na nuca, tenta me agradar, ganha confiança e com uma força bem definida vai arrastando, sem grande atrito, meus pés para a risca. Fico envolvida, encantada ao ponto de me deixar levar. Quando estou chegando ao limite, o sopro da vida para de me querer bem, soltando-me. Ele não dança mais comigo, ele não faz carinho na nuca nem susurra coisas bonitas no ouvido. Some para confundir minha mente, some para encontrar minha racionalidade e por mais que eu queria agir sob um delírio o vento me põe contra meu equilíbrio e eu dou um passo atrás no abismo.

Eu grito aos quatro ventos que não preciso escutar a consciência, mas o vento não se importa com esse drama. Ele sabe que eu só quero alguém para por a culpa dos meus equívocos. Ele é mais sagaz que eu e quer que eu decida com plena lucidez e sabedoria meu destino. A natureza se traveste de cigana e desvenda meu passado e presente, lê minha mente e aposta no meu futuro, pondo-o nas minhas próprias mãos.

Eu finco minhas unhas na terra, olho para baixo e penso quanta dor pode haver numa queda. Calculo meus giros e piruetas, todo e qualquer movimento que possa tomar conta do meu corpo nas condições de arremesso. O vento volta e me diz bem baixo:

- Você vai aprender a caminha com as próprias pernas.

Eu não creio com firmeza nessa sentença, porém o mago não erra. Vidente, o vento distrai minha loucura por alguns tempo, mas sabe que vai voltar. Ele rir dessa impasse como se fosse natural querer por fim naquilo que eu tenho de mais precioso. Eu sorrio de volta, sem saber para onde olhar e tenho um estalo súbito:

- Para começar a caminhar, preciso dar somente um passo a mais...

Fim da dança das estações.

Nenhum comentário: