terça-feira, 31 de agosto de 2010

Aletheia.


E depois que eu apago seu nome na minha lista telefônica, depois que eu esqueço seu endereço, bem depois que eu cicatrizando os cortes, você reaparece. Você me liga, me procura para dizer quantas saudades tem do que já fomos. E com todo a meiguice de sempre, com o carinho que eu já tinha me acostumado a não sentir, você esquenta aquilo que já tinha esfriado ao ponto de evaporar.

Não, Felícia, não. Entenda que eu vou resistir a você só dessa vez. Quero provar a mim mesmo que não sou seu capacho. Quero me sentir homem no mais alto grau do machismo para me reconhecer no espelho. Eu preciso abstrair a imagem do seu corpo branco perolado sobre minha cama, esquecer o toque suado das suas mãos.

Eu me pergunto quando terei paz de espírito e isso implica no exato momento em que você sumirá do meu campo de visão para sempre. Confesso que enquanto você andava de um lado para o outro nas manhãs ensolaradas dentro do meu quarto eu estudava a sua anatomia, desde seus cabelos aos seus pés finos. Cada curva do seu corpo me chamava para o pecado e hoje não é diferente. Depois de desligar o telefonema inesperado, fiquei excitado ao ponto de sentir seu cheiro no ambiente mesmo sem sua presença aqui.

Mas entenda, Felícia, eu não posso me arriscar tanto. Um dia da caça e outro do caçador. Eu não posso ser a presa fácil dessa vez. Nós dois sabemos que você me tem nas mãos, entretanto isso poderia ficar subentendido. Nós dois poderíamos acreditar na minha força de vontade pelo menos uma vez. Nós dois... chega de planos para nós. Você poderia desaparecer como sempre e deixar que eu continue a te querer só de longe, porque de longe é mais seguro. Ponto.

Ápeiron



A gente tem mil coisas para falar o tempo todo. Eu, particularmente, ando anotando tópicos interessantes ou treinando no espelho. Converso sozinha para ver se o tom de voz fica bom, se você vai me entender de primeira.

Então é quando você nota a minha fraqueza e me engole com seus olhos cor de mel, fazendo eu me perder nas palavras. Eu gaguejo, tropeço no que penso, esqueço a ordem lógica das frases e meus planos de levar uma conversa num segmento racional vão por água abaixo.

Você me mastiga de um jeito sem igual, tritura bem devagar meus ombros e braços e a gente rir sem parar do nada e para o nada. Você prova dos meus dedos, do meu pescoço e eu fico sem saber onde enfiar a cara. Você me põe na boca levemente e segura meu rosto para que eu assista à essa tortura deliciosa.

Eu fico desorientada nas suas mãos, deixando você guiar todo o processo de digestão e no fim a única frase completa e com nexo que eu sei falar ao teu lado é o bom e velho "eu te amo".

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Cruzamento.


Eu adoro quando você se preocupa comigo. Quando espera o meu expediente acabar e segue até à minha casa para se certificar que vou ficar bem. Quando me observa e guia de longe, como se eu não soubesse da sua existência, eu atravessando a avenida principal em passos largos. Quando, por coincidência, nos encontramos no Pacífico e você senta e toma um café ao meu lado, perguntando como foi a minha semana, mesmo sabendo na ponta da língua tudo o que eu possa ter feito.

E eu continuo a adorar o seu dedo atencioso, suave na minha rotina. As respostas vêm rápidas como se você fosse um diário onde eu pudesse escrever o resumo dos meus dias sem me preocupar no sentido das palavras. Você conta sobre novidades que nem me interessam, mas eu escuto tudo como quem dependesse daquelas informações soltas para viver.

E a gente sai de mãos dadas, ora correndo da chuva, ora esperando as gotas mais pesadas tocarem nossos corpos, indo em direção ao parque para pegar um ônibus. E como sempre, está tarde o suficiente e não passa ônibus algum na rua deserta. Você se dispõe a me acompanhar até à minha casa na escuridão da noite, na calmaria do silêncio que nós produzimos.

Esse teu cuidado me encanta, me inspira e eu passo a te ver, cada vez mais, de um modo especial e surpreendente. Então a gente se despede dizendo um ''tchau, até qualquer dia'', mesmo sabendo que você não resistirá a me seguir pelo cruzamento no dia seguinte. E sabendo disso a gente sorri sem jeito. Eu finjo que não noto e você finge que está na minha vida por acaso. Nos beijamos no rosto de maneira amigável e eu te vejo seguir num vulto sereno na escuridão e espero com ansiedade que tudo aconteça amanhã mais uma vez.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Hamon.

Eu fico tão desorientada ao pensar em você que perco as palavras na imensidão de adjetivos que tento incorporar ao teu nome. Se eu for contar sobre teus ombros ou descrever teu andar adolescente, vou ficar atordoada e sem fôlego mais uma vez.

Notei tua cicatriz no braço direito e ainda assim, ela era linda. Era completamente perfeita, do tamanho certo, nem tão clara nem tão escura e eu fiquei me perguntando que diabos tinha ferido uma pele tão limpa e branca como a tua. Como pode alguém querer teu mal se você só ameniza as dores do mundo?

Quando me permitiu beijá-lo no rosto fiquei contente por inteira, satisfeita com meu ego e com muita vontade de te abraçar com força e sentir teu calor naquele cruzamento, no meio do sinal, como se estivessimos dançando pela primeira vez, com um corpo junto ao outro numa mesma sintonia.

Oh meu bem, tenta me enxergar de uma maneira não tão óbvia que eu juro controlar a mania de te querer por toda a vida. Posso começar te querendo só por uns meses, depois semanas, uns dias quem sabe.. até te ter por completo por um instante que seja. Só aviso uma coisa: não vou me cansar de sonhar com o dia em que te terei de verdade.