sexta-feira, 30 de julho de 2010

Vidro Fumê.



As imperfeições da tua pele me tiram o sono. Eu poderia desenhar todo teu corpo com os detalhes mais ínfimos de olhos vendados. Eu consigo sentir tua respiração quente e tranquila, como se quisesse demonstrar equilíbrio o tempo todo. Eu sei sobre sua solidão, sua família que mora longe e o tédio que rege teus dias.

Quando me encontrar poderá se desarmar, pois eu sei quem você por inteiro. Parece que vim ao mundo para te entender e proteger. Compreendo tua história, analiso tuas derrotas, conheço suas inseguranças, conheço também o teu sorriso forçado de quem quer ser gentil (e que não deixa de ser absurdamente maravilhoso), sei sobre o cachorro que você criou por 3 anos e morreu sabe-se lá o motivo e sobre suas caminhadas na praia de manha cedo e quando você fala sozinho para treinar assuntos interessantes usados com pessoas tímidas.

Às sextas-feiras você toma um expresso ao lado da banca de jornal amarela. Você ama aquela banca porque lembra um filme antigo que tem um final feliz. Nos domingos, quando o apartamento está suficientemente arrumado pela 4° vez você vai ler, mas sempre se pega distraído ao pensar em quem está na calçada do seu prédio no meio do centro da cidade. Gosta da noite e de barzinhos com música ao vivo. É clássico, gosta de pintura abstrata, escuta Mozart, prefere azul à verde, tem poucas amigas do sexo oposto, prefere ruivas porque são difíceis de encontrar, usa roupas confortáveis e largas e cantarola a mesma música todos os dias indo para o trabalho.

Ontem entrei num restaurante vi seu reflexo num vidro fumê não tão escuro que dividia o lugar entre fumantes e não fumantes. Meu coração nem podia acreditar; eu menos ainda. Agradeci aos céus a sorte de encontrá-lo num momento auspicioso para puxar assunto. Minhas pernas bambeavam, mas com muito esforço fui me aproximando do tal vidro que separava o ''depois'' da minha vida, na brincadeira do ANTES e DEPOIS que há na tv.

Ao atravessar aquela barreira densa que era o vidro grosso fiquei horrorizada ao perceber que você não estava lá. Olhava para todos os lados, procurando-o, querendo-o; perguntando para os garçons onde se encontrava o moço que estava sentado na mesa da esquerda perto do vidro. Longos minutos correram (ou foram horas?) e eu começei a perceber o que se passava ali na minha agonia de abandono mais uma vez. Por fim compreendi que durante toda minha vida eu busquei uma única opção de ser feliz, mas havia um equívoco, da minha parte, imperdoável que alterava por completo o último capítulo da nossa história de amor: Você simplesmente nunca existiu.

4 comentários:

Iago Barreto disse...

Essa história foi criada, ou é verídica? Acredito que tenha sido convencionada, pois o final é sugestivo: "você simplesmente nunca existiu", no entanto a forma como texto se delineia, me leva a crer que de fato esse alguém existe, pelas mais minuciosas análises e formas como trata a "existência" dele.

giu batista disse...

nenhum pouco verídica.
*quem dera ser!*
hahaha

:*

Anônimo disse...

qque lindo giiu!

giu batista disse...

thanks!