sábado, 3 de julho de 2010

93 que antecede 68.

Mas o amor, essa palavra... Moralista Horácio, temeroso de paixões sem uma razão de águas fundas, desconcertado e arisco na cidade onde o amor se chama com todos os nomes de todas as ruas, de todas as casas, de todos os andares, de todos os quartos, de todas as camas, de todos os sonhos, de todos os esquecimentos ou recordações. Amor meu, não te amo por ti nem por mim nem pelos dois juntos, não te amo porque o sangue me faça te amar, amo-te porque tu não és minha, porque tu estás do outro lado, desse lado para onde me convidas a saltar e não posso dar o salto, porque no mais profundo de tudo tu não estás em mim, e não te alcanço, não consigo passar para lá do teu corpo, do teu riso, há horas em que me atormento por saber que tu me amas (como gostas de usar o verbo amar, com que pretensiosismo vais deixando cair o verbo amar sobre os pratos, os lençóis e os ônibus), atormento-me com o teu amor que não me serve de ponte, pois uma ponte não se apóia de um lado só, Wright ou Le Corbusier jamais farão uma ponte apoiada de um lado só e não me olhes com esses olhos de pássaro, para ti a operação do amor é muito fácil, tu ficarás curada antes de mim, e a verdade é que não amo aquilo que amas em mim. É claro que tu depressa te curarás, porque vives na saúde, depois de mim será outro qualquer, isso muda como os espartilhos. É tão triste ouvir o cínico Horácio que deseja um amor passaporte, amor alpinista, amor chave, amor revólver, amor que lhe dê os mil olhos de Argos, a ubiqüidade, o silêncio no qual a música é possível, a raiz na qual se poderia começar a tecer uma língua. E é ridículo porque tudo isto dorme um pouco em ti, seria suficiente submergir-te num copo de água, como uma flor japonesa, e estou certo de que, pouco a pouco, começariam a brotar pétalas coloridas, as formas curvas aumentariam, a beleza cresceria. Doadora de infinito, eu não sei tomar, perdoa-me. Tu pareces oferecer-me uma maçã e eu deixei os dentes sobre a mesa de cabeceira. Stop, tudo já está bem, assim. Também sei ser grosseiro, note bem. Mas note bem, porque não é gratuito.

Por que stop? Por medo de começar as fabricações, são tão fáceis. Tira-se uma idéia de algum lugar, um sentimento de outra estante, amarra-se tudo com a ajuda de palavras, cadelas negras: e resulta que te amo. Total parcial: te amo. Total geral: te amo. Muitos amigos meus vivem assim, sem falar de um tio e dois primos, convencidos do amor-que-sentem-por-suas-esposas. Da palavra aos atos, meu amigo; em geral, sem verba não há comida. Aquilo a que muita gente chama amar consiste em escolher uma mulher e casar com ela. Escolhem, juro, já os vi. Como se se pudesse escolher no amor, como se amar não fosse um raio que quebra os ossos e nos deixa paralisados no meio do pátio. Tu dirás que eles escolhem porque-a-amam; creio que é o contrário. Não se pode escolher Beatriz, não se pode escolher Julieta. Não podemos escolher a chuva que nos vai encharcar até os ossos quando saímos de um concerto. Mas estou sozinho no meu quarto, estou caindo nas artimanhas da escrita, as cadelas negras vingam-se como podem, mordem-me debaixo da mesa. Deve dizer-se em baixo ou debaixo? Mordem de qualquer modo. Por quê, por quê, pourquoi, why, warum, perchè este horror às cadelas negras? Olhem-nas aí, neste poema de Mashe, convertidas em abelhas. E aí, em dois versos de Octavio Paz, pernas do sol, recintos do verão. Mas Maria e a Brinvilliers são um mesmo corpo de mulher; os olhos que se turvam olhando um belo ocaso são a mesma óptica que se oferece com as contorções de um enforcado. Tenho medo desse proxenetismo, de tinta e de vozes, mar de línguas lambendo o cu do mundo. Há mel e leite debaixo da sua língua... Sim, mas também está dito que as moscas mortas fazem cheirar mal o perfume do perfumista. Em guerra com a palavra, em guerra, tudo o que seja necessário, embora haja que renunciar à inteligência, fica no mero pedido de batatas fritas e nos telegramas Reuter, nas cartas do meu nobre irmão e nos diálogos do cinema. Curioso, muito curioso que Puttenham sentisse as palavras como se fossem objetos, e até mesmo criaturas com vida própria. Também eu, por vezes, penso estar engendrando rios de formigas ferozes que comerão o mundo. Ah, se no silêncio o Roc meditasse... Logos, faute éclatante! Conceber uma raça que se manifestasse pelo desenho, pela dança, pelo macramé ou por uma mímica abstrata! Seria possível evitar as conotações, raiz do engano? Honneur des hommes, et. Sim, mas uma honra que se desonra em cada frase, como um bordel de virgens, se a coisa fosse possível.

Do amor à filologia, você está muito lúcido, Horacio. A culpa é de Morelli, que o obceca e que, com sua insensata tentativa, faz com que você entreveja um regresso ao paraíso perdido, pobre pré-adamita de snack-bar, da idade de ouro embrulhada em celofone. This is a plastic's age, man, a plastic's age. Esqueça as cadelas. Passa, matilha, temos de pensar, aquilo que se chama pensar, ou seja, sentir, situar-se e confrontar-se, antes de permitir a passagem da menor oração principal ou subordinada. Paris é um centro, entende, uma mandala que é preciso percorrer sem dialética, um labirinto onde as fórmulas pragmáticas só servem para a gene se perder. Então, um cogito que seja como respirar Paris, entrar em, Paris, deixando que Paris também entre nós, neuma e não logos. Argentino, compadre, desembarcando com a suficiência de uma cultura de três por cinco, entendido em tudo, em dia com tudo, dono de um bom gosto aceitável, a história da raça humana bem sabida, os períodos artísticos, o Romântico e o Gótico, as correntes filosóficas, as tensões políticas, a Shell Mex, a ação e a reflexão, o compromisso e a liberdade, Piero della Francesca e Anton Werben, a tecnologia bem catalogada, Lettera 22, Fiat 1600, João XXIII. Que bom, que bom. Era uma pequena livraria da Rue du Cherche-Midi, era um ar suave de passeios pausados, era a tarde e a hora, era a estação florida do ano, era o Verbo (no princípio), era um homem que pensava ser um homem. Que burrice infinita, mãe! E ela saiu da livraria (só agora me dou conta de que era como uma metáfora, ela saindo nada menos do que de uma livraria) e trocamos duas palavras e fomos tomar um copo de pelure d'oignon num café de Sèvres-Babylone (falando de metáforas, eu era porcelana delicada recém-desembarcada, HANDLE WITH CARE, e ela era Babilônia, raiz do tempo, coisa anterior, primeval being, terror e delícia dos inícios, romantismo de Atala, mas como um tigre autêntico, esperando atrás da árvore). E assim Sèvres foi com Babilônia tomar um copo de pelure d'oignon, olhávamos um para o outro, e penso que já começávamos a nos desejar (mas isso foi mais tarde, na Rue Réaumur), e sucedeu um diálogo memorável, absolutamente recoberto de mal-entendidos, de desajustes que se solucionam em vagos silêncios, até que as mãos começaram a marcar, era doce acariciar as mãos, olhando um para o outro e sorrindo, acendíamos Gauloises na ponta do cigarro do outro e vice-versa, esfregávamo-nos com os olhos, estávamos tão de acordo em tudo que até era uma vergonha, Paris dançava lá fora, esperando-nos, acabávamos de desembarcar, começávamos a viver, udo estava ali, sem nome e sem história (particularmente para Babilônia, e o pobre Sèvres fazia um enorme esforço, fascinado com aquela maneira como Babilônia olhava o gótico sem lhe colocar etiquetas, como andava pelas margens do rio sem ver passar os drakens normandos). Quando nos despedimos, éramos como duas crianças que se tinham tornado estrepitosamente amigas numa festa de aniversário e que continuavam olhando uma para outra enquanto os pais as puxavam pelas mãos, arrastando-as, e isso é uma dor doce e uma esperança, e sabe-se que um se chama Tony e a outra Lulu, e basta para que o coração seja como um morango e ...

Horacio, Horacio.
Merde, alors. Por que não? Falo daquele tempo, de Sèvres-Babylone, não deste balanço elegíaco em que já sabemos que a sorte está lançada.


O jogo da Amarelinha.

2 comentários:

Joao B disse...

Bravo!!! Encontrei esse post por acaso, procurando por informações sobre Cortázar. Já faz um tempo que li O jogo ga amarelinha, mas esse trecho nunca esqueci.

giu batista disse...

incrível né? eu, particularmente leio os textos deles e fico com falta de ar. São frases longas, tão continuas e puras que tenho a sensação da rapidez em que tudo acontece com o personagem. GENIAL!

;)

sirva-se desse trecho então, moço!
Obrigada!