sexta-feira, 30 de julho de 2010

Vidro Fumê.



As imperfeições da tua pele me tiram o sono. Eu poderia desenhar todo teu corpo com os detalhes mais ínfimos de olhos vendados. Eu consigo sentir tua respiração quente e tranquila, como se quisesse demonstrar equilíbrio o tempo todo. Eu sei sobre sua solidão, sua família que mora longe e o tédio que rege teus dias.

Quando me encontrar poderá se desarmar, pois eu sei quem você por inteiro. Parece que vim ao mundo para te entender e proteger. Compreendo tua história, analiso tuas derrotas, conheço suas inseguranças, conheço também o teu sorriso forçado de quem quer ser gentil (e que não deixa de ser absurdamente maravilhoso), sei sobre o cachorro que você criou por 3 anos e morreu sabe-se lá o motivo e sobre suas caminhadas na praia de manha cedo e quando você fala sozinho para treinar assuntos interessantes usados com pessoas tímidas.

Às sextas-feiras você toma um expresso ao lado da banca de jornal amarela. Você ama aquela banca porque lembra um filme antigo que tem um final feliz. Nos domingos, quando o apartamento está suficientemente arrumado pela 4° vez você vai ler, mas sempre se pega distraído ao pensar em quem está na calçada do seu prédio no meio do centro da cidade. Gosta da noite e de barzinhos com música ao vivo. É clássico, gosta de pintura abstrata, escuta Mozart, prefere azul à verde, tem poucas amigas do sexo oposto, prefere ruivas porque são difíceis de encontrar, usa roupas confortáveis e largas e cantarola a mesma música todos os dias indo para o trabalho.

Ontem entrei num restaurante vi seu reflexo num vidro fumê não tão escuro que dividia o lugar entre fumantes e não fumantes. Meu coração nem podia acreditar; eu menos ainda. Agradeci aos céus a sorte de encontrá-lo num momento auspicioso para puxar assunto. Minhas pernas bambeavam, mas com muito esforço fui me aproximando do tal vidro que separava o ''depois'' da minha vida, na brincadeira do ANTES e DEPOIS que há na tv.

Ao atravessar aquela barreira densa que era o vidro grosso fiquei horrorizada ao perceber que você não estava lá. Olhava para todos os lados, procurando-o, querendo-o; perguntando para os garçons onde se encontrava o moço que estava sentado na mesa da esquerda perto do vidro. Longos minutos correram (ou foram horas?) e eu começei a perceber o que se passava ali na minha agonia de abandono mais uma vez. Por fim compreendi que durante toda minha vida eu busquei uma única opção de ser feliz, mas havia um equívoco, da minha parte, imperdoável que alterava por completo o último capítulo da nossa história de amor: Você simplesmente nunca existiu.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Dia do Rock



''Em 13 de julho de 1985, Bob Geldof organizou o Live Aid, um show simultâneo em Londres na Inglaterra e na Filadélfia nos Estados Unidos. O objetivo principal era o fim da fome na Etiópia e contou com a presença de artistas como The Who, Status Quo, Led Zeppelin, Dire Straits,Madonna, Queen, Joan Baez, David Bowie, BB King, Mick Jagger, Sting, U2, Paul McCartney, Phil Collins (que tocou nos dois lugares), Eric Clapton e Black Sabbath.


Foi transmitido ao vivo pela BBC para diversos países e abriu os olhos do mundo para a miséria no continente africano. 20 anos depois, em 2005, Bob Geldof organizou o Live 8 como uma nova edição, com estrutura maior e shows em mais países com o objetivo de pressionar os líderes do G8 para perdoar a dívida externa dos países mais pobres erradicar a miséria do mundo.


Desde então o dia 13 de julho passou a ser conhecido como Dia Mundial do Rock''


MUITO ROCK PARA TODOS VOCÊS.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Drama Mexicano...

O vazio toma conta do corpo que um dia já foi teu e agora há espaços em branco nas páginas do livro da minha vida que um dia foi tua também.

Onde vou passar os novos dias?
Vou continuar rezando para quem não acredita?

Meus dedos nada tocam além do lado não habitado da cama. Os erros não me esclareceram grande coisa. Aprendi a ser um bom perdedor diante da tua partida. Acho que não devo insistir em escrever no escuro, pois as linhas não são tortas como meu estado emocional, o tal fracasso parcial de estar morto e tão feliz.

Então está decidido, concretizado, afirmado, solidificado, anunciado e todos os outros ados existentes para firmar a crença no que falo: nunca mais escreverei sobre tua perfeição na luz, não colocarei suas iniciais nos pulsos nem citarei seu nome (somente para minha boca desacostumar da sua presença). Não sou poeta e não sei a amar. Mas um dia eu aprendo!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

No inferno.

Hoje eu desisti de toda a vida que há em mim. Não que eu seja fraco, mas foi necessário. Eu abandonei toda a babaquice linear que me cerca. Que me cercava! Eu renasci para me salvar de mim. O óbvio já não me interessava a um bom tempo, se é que me entende. Explodo de ódio quando amanhece e noto o ''de sempre'' comigo. Como se fosse a minha sombra, minha consciência impulsionando a rotina da minha história. Eu não vou mudar nada sendo tão humano, assim, tão repetitivo. Acho que preciso ir no inferno e voltar só para ter uma experiência mais interessante que meu dia-a-dia. Ah, lembrei: o inferno é aqui.

Balada de um vagabundo.



Quando eu era pequena, lá para os meus 7 ou 8 anos de idade, costumava mexer nas coisas da minha mãe. Uma atividade normal para uma criança normal, até então. Gostava dos Cds velhos escondidos num canto do bar cor madeira quais eu não entendia a capa, nem as letras, mas gostava da voz.

Eu escutava aquelas melodias fortes e achava muito bonito mesmo sem entender do que se tratava aquele novo mundo. Perguntava sem cessar para minha mãe, quem foram eles, o que faziam, o que representavam e ela respondia de uma maneira bárbara para uma menina tão nova:

- Cazuza? Ele foi um grande poeta, mas não soube viver. Ele não pode ser admirado por ninguém, sabe? ele xingava a própria mãe em publico, usava drogas e tal. Ninguém pode gostar dele. Cássia Eller? ela também não prestava. Ela morreu agora, filha. Talvez por uso de drogas também. E ainda gostava de meninas... não pode, sabe? O Lobão? Nunca foi aceito na sociedade, meu bem. Ele é tão terrível que nunca alcançou nem o sucesso estável. Ele não tem credibilidade em canto nenhum. Nem Renato Russo, nem esse outro chamado de Raul Seixas.. esquece isso, esquece isso...

E eu pensava: Como pessoas tão erradas assim podem ser tão encantadores? Por que há tanta gente, legião de fãs, compreende? adorando a música deles se os caras são marginais? Marginais, sim, que estão à margem da sociedade.

Era curioso para mim essa brincadeira de grandezas inversamente proporcionais e eu, na minha inocência, via tudo como belo. Era demais para mim ter pessoas más e tão admiradas no topo. Esses caras tinham adjetivos opostos na boca daquela que me mostrou o que é certo e errado e eu ficava fascinada. Não podia compreender a maldade deles e ainda assim sendo, minha própria mãe odiando tanto pessoas desse tipo, tinha Cds e mais Cds dos mesmos. ''Genial!'', eu pensava.

Todos esses ícones do rock nacional participaram da minha infância sem eu mesma notar. Em especial, tenho um respeito e carinho extra sobre o poeta rebelde. Cazuza marcou minha vida de uma maneira ímpar, desde o Barão Vermelho à sua carreira solo. Não só pela obra, mas pela personalidade que moldou, contra a vontade da mamãe, claro, MINHA personalidade.

Cazuza morreu em 7 de julho de 1990, quando não era nascida. Não pude assistir sua arte, mas vivo hoje. Nessa última quarta-feira completou-se 20 anos de sua morte e eu não poderia deixar de comentar aqui no decifra-me. Para mim, ainda, o poeta está vivo com seus moinhos de vento a impulsionar a grande roda da história.


Um garoto de Ipanema

Na definição do dicionário, "cazuza" é um vespídeo solitário, de ferroada dolorosa. Deriva daí, provavelmente, o outro significado que o termo tem no Nordeste: o de moleque. Foi por isso que João Araújo, de ascendência nordestina, certo de que sua mulher Lúcia teria um menino, começou a chamá-lo de Cazuza, mesmo antes de seu nascimento. Batizado como Agenor de Miranda Araújo Neto, desde cedo o menino preferiu o apelido. O nome ele só viria a aceitar mais tarde, ao saber que Cartola, um dos seus compositores prediletos, também se chamava Agenor.

Nascido a 4 de abril de 1958, no Rio de Janeiro, Cazuza foi criado em Ipanema, habituado à praia. Os pais - ele, divulgador da gravadora Odeon; ela, costureira - não eram ricos mas o matricularam numa escola cara, o colégio Santo Inácio, dos padres jesuítas. Como às vezes tinham que sair à noite, o filho único se apegou à companhia da avó materna, Alice. Quieto e solitário, foi um menino bem-comportado na infância.

Na adolescência, porém, o gênio rebelde do futuro roqueiro se manifestaria. Cazuza terminou o ginásio e o segundo grau a duras penas, e, depois de prestar vestibular para Comunicação, só porque o pai lhe prometera um carro, desistiu do curso em menos de um mês de aula. Já vivia então a boemia no Baixo Leblon e o trinômio sexo, drogas e rock 'n' roll. Que ele amasse Jimi Hendrix, Janis Joplin e os Rolling Stones, tudo bem. Mas vir a saber que se drogava e que era bissexual, isso, para a supermãe Lucinha, não foi nada fácil. Assim como não foi, para o pai, ter que livrá-lo de prisões e fichas na polícia, por porte e uso de drogas.

João Araújo não queria o filho na vagabundagem e, em 1976, arrumou emprego para ele na gravadora Som Livre, onde já era presidente. Lá, Cazuza trabalhou no departamento artístico, fazendo a primeira triagem de fitas de cantores novos, e na assessoria de imprensa. Depois foi divulgador de artistas na gravadora RGE, e, após sete meses de um curso de fotografia na Universidade de Berkeley, deu alguns passos como fotógrafo. Mas nada disso o satisfazia.

Graças, contudo, a um outro curso - de teatro, dado pelo ator Perfeito Fortuna (grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone) - Cazuza acharia o seu papel. Não seria representar, mas cantar. É que na montagem da peça "Pára-quedas do coração", conclusão do curso, tudo o que ele fez foi soltar a voz, vindo a gostar muito da experiência. Afinal, música ele já respirava desde criança. Em casa mesmo, se acostumara a conviver com a presença de estrelas da MPB que seu pai produzia. Por que não se tornar também uma delas? Só faltava achar a sua turma.


Da garagem aos Palcos

Roberto Frejat, guitarrista; Dé, baixista; Maurício Barros, teclados; Guto Goffi, baterista. Era 1981 e esses garotos precisavam de um vocalista para completar sua banda. Os ensaios aconteciam na casa de um deles no bairro de Rio Comprido, onde um dia apareceu Cazuza, enviado pelo cantor Léo Jaime. Sua voz, era adequadamente berrada para os rocks de garagem que os quatro faziam, agradou muito. Animado, o novo integrante resolveu então mostrar as letras que, na surdina, vinha fazendo havia tempos. Rapidamente o grupo, que se chamava Barão Vermelho e só tocava covers, começou a compor e aprontou um repertório próprio.

Dos primeiros shows, em pequenos teatros da cidade, ao disco de estréia foi um pulo. No início de 1982 uma fita demo chegou aos ouvidos do produtor Ezequiel Neves, que, entusiasmado, a mostrou a Guto Graça Mello, diretor artístico da Som Livre. Juntos, eles convenceram João Araújo - de início, relutante, na condição de pai do cantor - a lançar a banda. Com uma produção baratíssima, "Barão Vermelho", gravado em dois dias, obteve boa recepção da parte de artistas. Entre estes, um dos maiores ídolos de Cazuza, Caetano Veloso, que incluiu "Todo amor que houver nessa vida" no repertório de seu show e criticou as rádios por não tocarem as músicas do grupo.

"Todo amor que houver nessa vida" (registrada também, mais tarde, por Gal Costa, Caetano Veloso e outros intérpretes) foi um dos destaques de um disco que revelou ainda "Down em mim", "Billy Negão" e "Bilhetinho azul". No repertório predominavam rocks básicos, dançantes e juvenis, mas havia também blues, um gênero com o qual Cazuza se identificava desde que descobrira Janis Joplin. Sobre essas músicas o rouco cantor desfilava letras falando despudorada, escancaradamente de amor, prazer e dor. Ao sair o segundo disco, a reiteração dessas qualidades de estilo repercutiu na imprensa. Alguns críticos não tardaram a identificar ali a influência de mestres da dor-de-cotovelo, como Lupicínio Rodrigues, e da fossa, como Dolores Duran e Maysa - o outro lado da formação musical de Cazuza.

Bem melhor gravado, "Barão Vermelho 2" foi lançado em julho de 1983. O álbum ainda não seria um sucesso comercial (vendeu cerca de 15 mil cópias, quase o dobro do primeiro), mas manteve o alto nível do repertório anterior, e arregimentou um público maior para a banda com músicas como "Vem comigo", "Carne de pescoço", "Carente profissional" e "Pro dia nascer feliz". Esta última consolidaria a dupla Frejat-Cazuza, tornando-se um grande sucesso no registro feito por Ney Matogrosso, a primeira estrela da MPB a gravá-los. A escalada do grupo nas paradas, contudo, estava prestes a acontecer.


O vôo do Barão Vermelho

Se com "Bete Balanço", filme de Lael Rodrigues, o rock brasileiro dos anos 80 chegou às telas de cinema, com a música-título, feita de encomenda para a trilha, o Barão Vermelho chegou ao grande público. Registrada num compacto do início de 1984, a canção estourou, virando um marco no trajeto da banda, que também contracenava no filme. A música acabou incluída no terceiro LP, lançado em setembro daquele ano, para ajudar a sua comercialização. O que talvez nem tivesse sido necessário, pois "Maior abandonado", impulsionado pela faixa homônima, atingiu em dois meses a marca das 60 mil cópias vendidas, e em seis, das 100 mil.

"Raspas e restos me interessam (...) Mentiras sinceras me interessam", em "Maior Abandonado"; "Você tem exatamente três mil horas/ Pra parar de me beijar (...) Você tem exatamente um segundo/ Pra aprender a me amar", em "Por que a gente é assim?"; "A fome está em toda parte/ Mas a gente come/ Levando a vida na arte", em "Milagres". Com achados como esses, presentes no novo álbum, Cazuza foi ganhando fama de poeta do rock brasileiro. Com muita energia, ele foi superando suas limitações como cantor. Suas atitudes irreverentes e declarações espalhafatosas, fizeram com que aparecesse cada vez mais como artista e personalidade. A princípio, tudo isso só contribuía para chamar a atenção para o grupo todo. Mas...

Com o sucesso, e , conseqüentemente, com a maior exigência de profissionalismo, as diferenças se ressaltaram. O temperamento irriquieto de Cazuza pouco se adequava a uma agenda cada vez mais sobrecarregada de ensaios e entrevistas. Os desentendimentos foram crescendo. Em janeiro de 1985, o Barão fez uma bem-sucedida participação no festival Rock 'n Rio, abrindo shows para grandes atrações do rock internacional. A continuidade do sucesso, porém, não conseguiu evitar a separação do grupo. Em julho, quando o material para o próximo disco já estava selecionado, a notícia chegou aos jornais: enquanto os outros seguiriam com a banda, sua estrela partiria para uma brilhante carreira solo.

Poucos dias depois, Cazuza voltava a ser notícia. Tinha sido internado num hospital do Rio com 42 graus de febre. Diagnóstico: infecção bacteriana. O resultado do teste HIV, que ele exigiu fazer, dera negativo. Mas naquela época os exames ainda não eram muito precisos.


Enfim, só (e livre)

Gravado com outros músicos, o álbum "Cazuza" apresentou uma sonoridade mais limpa que a do Barão. Lançado em novembro de 1985, o disco inaugurou a fase individual do cantor e uma série de parcerias. Entre os co-autores das músicas figuraram dois antigos colaboradores: Frejat, que continuou parceiro e amigo de Cazuza, e Ezequiel Neves, outro velho e grande amigo, co-produtor, desde os tempos do Barão, de todos os seus discos.

Cazuza assinou os maiores hits do novo álbum: em parceria com Ezequiel e Leoni, o rock "Exagerado", emblemático da sua persona romantico-poética, e a balada "Codinome Beija-flor", com Ezequiel e Reinaldo Arias. Mais dois rocks ficaram notórios. "Medieval II" fixou nas rádios seu auto-irônico refrão ("Será que eu sou medieval?/ Baby, eu me acho um cara tão atual/ Na moda da nova Idade Média/ Na mídia da novidade média"). E "Só as mães são felizes", que teve sua execução pública proibida pela censura. Escandalosa ("Você nunca sonhou ser currada por animais? (...) Nem quis comer sua mãe?"), a letra homenageou artistas malditos, como o escritor beat Jack Kerouac, citado no verso-título.

Importante referência literária de Cazuza, ao lado de Clarice Lispector (cujo "A descoberta do mundo" tornou seu livro de cabeceira), Kerouac também teve um poema transcrito na contracapa do disco seguinte. Lançado em março de 1987, "Só se for a dois" foi o primeiro álbum de Cazuza fora da Som Livre, que resolvera dissolver o seu cast. Disputado por várias gravadoras, ele se transferiu para a Polygram, a conselho do pai. A essa altura, apesar da imagem de artista "louco", sua postura profissional já era outra. O rompimento com o Barão, junto com a liberdade artística que almejara, trouxera também a exigência de mais seriedade.

"Só se for a dois" acrescentou novos sucessos à sua carreira, a começar pela canção-título, mas a música que estourou mesmo foi o pop-rock "O nosso amor a gente inventa (estória romântica)". Em seguida ao lançamento, uma turnê nacional mostrou um show mais elaborado que os anteriores, em termos de cenário e iluminação. Cazuza se aprimorava e decolava: seus espetáculos lotavam, suas músicas tocavam e a crítica elogiava seu trabalho.

A essa época, contudo, ele já sabia que estava com Aids. Antes de estrear o show "Só se for a dois", tinha adoecido e feito um novo exame. A confirmação da presença do vírus iria transformar sua vida e sua carreira.


Arte longa, vida breve

Em outubro de 1987, após uma internação numa clínica do Rio, Cazuza foi levado pelos pais para Boston, nos Estados Unidos. Lá, passou quase dois meses críticos, submetendo-se a um tratamento com AZT. Ao voltar, gravou "Ideologia" no início de 1988, um ano marcado pela estabilização de seu estado de saúde e pela sua definitiva consagração artística. O disco vendeu meio milhão de cópias. Na contracapa, mostrou um Cazuza mais magro por causa da doença, com um lenço disfarçando a perda de cabelo em função dos remédios. No seu conteúdo, um conjunto denso de canções expressou o processo de maturação do artista.

"O meu prazer agora é risco de vida/ Meu sex and drugs não tem nenhum rock 'n' roll", confessava ele, em "Ideologia". E: "Eu vi a cara da morte/ E ela estava viva", em "Boas novas". Rico e diverso, o repertório trouxe ainda um blues, o "Blues da piedade", uma canção "meio bossa nova e rock 'n' roll", "Faz parte do meu show", grande sucesso, e o rock-sambão "Brasil", que faria um sucesso ainda maior com Gal Costa. Tema de abertura da novela "Vale tudo", da Rede Globo, "Brasil" fez um comentário social forte sobre o país, com versos como "meu cartão de crédito é uma navalha". No disco, a temática social apareceu também em "Um trem para as estrelas", feita com Gilberto Gil para o filme homônimo de Carlos Diegues.

Ainda em 1988 Cazuza recebeu o Prêmio Sharp de Música como "melhor cantor pop-rock" e "melhor música pop-rock", com "Preciso dizer que te amo", composta com Dé e Bebel Gilberto, e lançada por Marina. E apresentou no segundo semestre seu espetáculo mais profissional e bem-sucedido, "Ideologia". Dirigido por Ney Matogrosso, Cazuza buscou valorizar o texto no show, pontuado pela palavra "vida". Substituiu a catarse das performances anteriores por uma postura mais contida no palco. Tal contenção, porém, não o impediu de exprimir sua verve agressiva e escandalosa num episódio que causou polêmica. Cantando no Canecão, no Rio, cuspiu na bandeira nacional que lhe fora atirada por uma fã.

O show viajou o Brasil de norte a sul, virou programa especial da Globo e disco. Lançado no início de 1989, "Cazuza ao vivo - o tempo não pára" chegou ao índice de 560 mil cópias vendidas. Reunindo os maiores sucessos do artista, trouxe também duas músicas novas que estouraram: "Vida louca vida", de Lobão e Bernardo Vilhena, e "O tempo não pára", de Cazuza e Arnaldo Brandão. Esta - título do trabalho - condensou, numa das letras mais expressivas de Cazuza, a sua condição individual, de quem lutava para se manter vivo, com a do povo brasileiro.

Foi pouco depois do lançamento do álbum que ele reconheceu publicamente que estava com Aids, sendo a primeira personalidade brasileira a fazê-lo. Era então notória -e notável - a sua afirmação de vida. À medida que seu estado piorava, ao contrário de se deixar esmorecer ante a perspectiva do inevitável, Cazuza, ciente do pouco tempo que lhe restava, passou a trabalhar o mais que podia. Entrou num processo compulsivo de composição e gravou, de fevereiro a junho de 1989, numa cadeira de rodas, o álbum duplo "Burguesia", que seria seu derradeiro registro discográfico em vida.

O trabalho seguiu um conceito dual - num dos discos, de embalagem azul, prevalecia o gênero rock; no outro, de capa amarela, MPB. Entre as suas últimas novidades, com a voz nitidamente enfraquecida, Cazuza apresentou clássicos de outros autores (como Antonio Maria, Caetano Veloso e Rita Lee) e duas músicas feitas com novas parceiras, Rita Lee e Ângela Rô Rô. A canção-título, com uma letra extensa atacando os valores da classe burguesa, chegou a ser tocada nas rádios, mas o álbum não obteve sucesso comercial e foi recebido discretamente pela crítica.

Em outubro de 1989, depois de quatro meses seguindo um tratamento alternativo em São Paulo, Cazuza viajou novamente para Boston, onde ficou internado até março do ano seguinte. Seu estado já era muito delicado e, àquela altura, não havia muito mais o que fazer. Foi assim que ele morreu, pouco depois - a 7 de julho de 1990. O enterro aconteceu no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Sua sepultura está localizada próxima às de astros da música brasileira como Carmen Miranda, Ary Barroso, Francisco Alves e Clara Nunes.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Janelas.

Eu gosto das janelas alheias; são sempre baixas, altas, grandes, minúsculas, bonitas, sujas e ainda têm uma vista diferente dependendo do local. Eu me sinto melhor ao vento de outra janela que não seja a minha. É cena de filme, fim de novela, trecho de livro quando se ama. São caracterizadas por não serem iguais em hipótese alguma e assim sendo, expressam sensações diferentes o tempo todo.

Quando estou debruçada nas janelas que encontro no caminho fico leve ao ponto de sair do meu corpo encontrando nuvens bem cinzas mesmo não tão longe dali. Procuro essa impressão a todo custo por cada dia da minha vida coma a finalidade da libertação mundana. As vezes me perco nas ruas, propositalmente, para encontrar uma casa que me receba num tom diferente e que me ensine a me por sobre janelas mais altas.

Janelas com vista para o mar, com vista para a favela, para a rede elétrica. Não me importo em ter a paisagem mais agradável aos olhos por que só tenho olhos para o meu interior latente. Eu sonho em voar como Otto, mas sou Maga. Lúcia tão Maga. Sou de sonhos e carne e não posso voar como os passáros que admiro da janela daquele que eu amo. Aquele quem eu amo tem uma janela de vidro que me impede tocar no vento, sentir as estrelas e conversar com a lua. Aquele que eu amo só permite eu olhar para ele. Mas ele não tem cara de janela de beira-mar, não.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Me confundo, Te confundo.

As mudanças de humor desfocam minha lucidez. Num estalar de dedos percebo tudo fragmentado, numa variação de cor infindável, num zoom estranho, capaz de analisar detalhes atômicos. Meu temperamento, de tão lunático, incomoda até aquele que dorme comigo. Ninguém convive muito bem com bipolaridade.

As vezes sou eu quem sofismo. As vezes é o meu instinto.

Não nego que dói em mim também essa eterna reinvenção. Parece estranho. Eternidade, algo pragmático, ao lado de reinventar, algo que diz sobre mudanças e estados. Mas é esse o meu contexto, meu efeito, minha condição.

Não gosto de escrever sob pressão. As palavras devem se agregar no papel conforme meu estado de espírito: ora coerente, ora dissimulado. Elas não devem vir impondo obrigação alguma. As vezes sou eu quem faço a expressão. As vezes é o meu instinto.

Escrevo para dispersar facetas que se colidem, se chocam com gosto dentro de mim. Só sei escrever o que sou e o que quero ser. Pode parecer repetitivo, mas minha múltipla personalidade se encarrega de mudar o tom da história.

Nem sempre sou eu a protagonista. As vezes (inúmeras vezes!) é o meu vir a ser quem narra. Então, não acredite no que lhe conto aqui, pois neste momento não sei quem sou e quem possui meu corpo.

Voltando ao meu distúrbio, uma vez me disseram que sou cansativa. Concordo! Eu não me encaixo em definições pré-estabelecidas, mas sou fatigante quando estou em crise. As vezes quero beijos, as vezes quero solidão, agitação, talvez, bofetadas, quem sabe uma simples razão. O problema sou eu ou os meus desejos. Acho que os dois são um só, então chego ao nada. Surgimos com a intenção de causar dúvidas assim como a história do ovo e da galinha.

Acho que nasci para decifrar a Esfinge e salvar Tebas. Ou quem sabe nasci por engano... se é que nasci, por que posso ser o meu vir a ser agora.

Me confundo, te confundo
e nos confundimos,
então.

Boca.



Tua língua é hábil e sagaz dentro da minha boca.
Ela vem haurir minha lástima, transformando em alegria.
Me refaço entre os movimentos claros, disfarço o pudor ao provar da tua fonte.
É de praxe: sua língua possui a minha e a mim num longo encantamento.
Sua língua brinca com a minha num prazer infinito.
Sua língua envolve meu coração, tomando lugar do pericárdio.
Normalmente eu me rendo à sua boca.
Ah... sua língua.
Há sua língua.
A sua língua.

sábado, 3 de julho de 2010

93 que antecede 68.

Mas o amor, essa palavra... Moralista Horácio, temeroso de paixões sem uma razão de águas fundas, desconcertado e arisco na cidade onde o amor se chama com todos os nomes de todas as ruas, de todas as casas, de todos os andares, de todos os quartos, de todas as camas, de todos os sonhos, de todos os esquecimentos ou recordações. Amor meu, não te amo por ti nem por mim nem pelos dois juntos, não te amo porque o sangue me faça te amar, amo-te porque tu não és minha, porque tu estás do outro lado, desse lado para onde me convidas a saltar e não posso dar o salto, porque no mais profundo de tudo tu não estás em mim, e não te alcanço, não consigo passar para lá do teu corpo, do teu riso, há horas em que me atormento por saber que tu me amas (como gostas de usar o verbo amar, com que pretensiosismo vais deixando cair o verbo amar sobre os pratos, os lençóis e os ônibus), atormento-me com o teu amor que não me serve de ponte, pois uma ponte não se apóia de um lado só, Wright ou Le Corbusier jamais farão uma ponte apoiada de um lado só e não me olhes com esses olhos de pássaro, para ti a operação do amor é muito fácil, tu ficarás curada antes de mim, e a verdade é que não amo aquilo que amas em mim. É claro que tu depressa te curarás, porque vives na saúde, depois de mim será outro qualquer, isso muda como os espartilhos. É tão triste ouvir o cínico Horácio que deseja um amor passaporte, amor alpinista, amor chave, amor revólver, amor que lhe dê os mil olhos de Argos, a ubiqüidade, o silêncio no qual a música é possível, a raiz na qual se poderia começar a tecer uma língua. E é ridículo porque tudo isto dorme um pouco em ti, seria suficiente submergir-te num copo de água, como uma flor japonesa, e estou certo de que, pouco a pouco, começariam a brotar pétalas coloridas, as formas curvas aumentariam, a beleza cresceria. Doadora de infinito, eu não sei tomar, perdoa-me. Tu pareces oferecer-me uma maçã e eu deixei os dentes sobre a mesa de cabeceira. Stop, tudo já está bem, assim. Também sei ser grosseiro, note bem. Mas note bem, porque não é gratuito.

Por que stop? Por medo de começar as fabricações, são tão fáceis. Tira-se uma idéia de algum lugar, um sentimento de outra estante, amarra-se tudo com a ajuda de palavras, cadelas negras: e resulta que te amo. Total parcial: te amo. Total geral: te amo. Muitos amigos meus vivem assim, sem falar de um tio e dois primos, convencidos do amor-que-sentem-por-suas-esposas. Da palavra aos atos, meu amigo; em geral, sem verba não há comida. Aquilo a que muita gente chama amar consiste em escolher uma mulher e casar com ela. Escolhem, juro, já os vi. Como se se pudesse escolher no amor, como se amar não fosse um raio que quebra os ossos e nos deixa paralisados no meio do pátio. Tu dirás que eles escolhem porque-a-amam; creio que é o contrário. Não se pode escolher Beatriz, não se pode escolher Julieta. Não podemos escolher a chuva que nos vai encharcar até os ossos quando saímos de um concerto. Mas estou sozinho no meu quarto, estou caindo nas artimanhas da escrita, as cadelas negras vingam-se como podem, mordem-me debaixo da mesa. Deve dizer-se em baixo ou debaixo? Mordem de qualquer modo. Por quê, por quê, pourquoi, why, warum, perchè este horror às cadelas negras? Olhem-nas aí, neste poema de Mashe, convertidas em abelhas. E aí, em dois versos de Octavio Paz, pernas do sol, recintos do verão. Mas Maria e a Brinvilliers são um mesmo corpo de mulher; os olhos que se turvam olhando um belo ocaso são a mesma óptica que se oferece com as contorções de um enforcado. Tenho medo desse proxenetismo, de tinta e de vozes, mar de línguas lambendo o cu do mundo. Há mel e leite debaixo da sua língua... Sim, mas também está dito que as moscas mortas fazem cheirar mal o perfume do perfumista. Em guerra com a palavra, em guerra, tudo o que seja necessário, embora haja que renunciar à inteligência, fica no mero pedido de batatas fritas e nos telegramas Reuter, nas cartas do meu nobre irmão e nos diálogos do cinema. Curioso, muito curioso que Puttenham sentisse as palavras como se fossem objetos, e até mesmo criaturas com vida própria. Também eu, por vezes, penso estar engendrando rios de formigas ferozes que comerão o mundo. Ah, se no silêncio o Roc meditasse... Logos, faute éclatante! Conceber uma raça que se manifestasse pelo desenho, pela dança, pelo macramé ou por uma mímica abstrata! Seria possível evitar as conotações, raiz do engano? Honneur des hommes, et. Sim, mas uma honra que se desonra em cada frase, como um bordel de virgens, se a coisa fosse possível.

Do amor à filologia, você está muito lúcido, Horacio. A culpa é de Morelli, que o obceca e que, com sua insensata tentativa, faz com que você entreveja um regresso ao paraíso perdido, pobre pré-adamita de snack-bar, da idade de ouro embrulhada em celofone. This is a plastic's age, man, a plastic's age. Esqueça as cadelas. Passa, matilha, temos de pensar, aquilo que se chama pensar, ou seja, sentir, situar-se e confrontar-se, antes de permitir a passagem da menor oração principal ou subordinada. Paris é um centro, entende, uma mandala que é preciso percorrer sem dialética, um labirinto onde as fórmulas pragmáticas só servem para a gene se perder. Então, um cogito que seja como respirar Paris, entrar em, Paris, deixando que Paris também entre nós, neuma e não logos. Argentino, compadre, desembarcando com a suficiência de uma cultura de três por cinco, entendido em tudo, em dia com tudo, dono de um bom gosto aceitável, a história da raça humana bem sabida, os períodos artísticos, o Romântico e o Gótico, as correntes filosóficas, as tensões políticas, a Shell Mex, a ação e a reflexão, o compromisso e a liberdade, Piero della Francesca e Anton Werben, a tecnologia bem catalogada, Lettera 22, Fiat 1600, João XXIII. Que bom, que bom. Era uma pequena livraria da Rue du Cherche-Midi, era um ar suave de passeios pausados, era a tarde e a hora, era a estação florida do ano, era o Verbo (no princípio), era um homem que pensava ser um homem. Que burrice infinita, mãe! E ela saiu da livraria (só agora me dou conta de que era como uma metáfora, ela saindo nada menos do que de uma livraria) e trocamos duas palavras e fomos tomar um copo de pelure d'oignon num café de Sèvres-Babylone (falando de metáforas, eu era porcelana delicada recém-desembarcada, HANDLE WITH CARE, e ela era Babilônia, raiz do tempo, coisa anterior, primeval being, terror e delícia dos inícios, romantismo de Atala, mas como um tigre autêntico, esperando atrás da árvore). E assim Sèvres foi com Babilônia tomar um copo de pelure d'oignon, olhávamos um para o outro, e penso que já começávamos a nos desejar (mas isso foi mais tarde, na Rue Réaumur), e sucedeu um diálogo memorável, absolutamente recoberto de mal-entendidos, de desajustes que se solucionam em vagos silêncios, até que as mãos começaram a marcar, era doce acariciar as mãos, olhando um para o outro e sorrindo, acendíamos Gauloises na ponta do cigarro do outro e vice-versa, esfregávamo-nos com os olhos, estávamos tão de acordo em tudo que até era uma vergonha, Paris dançava lá fora, esperando-nos, acabávamos de desembarcar, começávamos a viver, udo estava ali, sem nome e sem história (particularmente para Babilônia, e o pobre Sèvres fazia um enorme esforço, fascinado com aquela maneira como Babilônia olhava o gótico sem lhe colocar etiquetas, como andava pelas margens do rio sem ver passar os drakens normandos). Quando nos despedimos, éramos como duas crianças que se tinham tornado estrepitosamente amigas numa festa de aniversário e que continuavam olhando uma para outra enquanto os pais as puxavam pelas mãos, arrastando-as, e isso é uma dor doce e uma esperança, e sabe-se que um se chama Tony e a outra Lulu, e basta para que o coração seja como um morango e ...

Horacio, Horacio.
Merde, alors. Por que não? Falo daquele tempo, de Sèvres-Babylone, não deste balanço elegíaco em que já sabemos que a sorte está lançada.


O jogo da Amarelinha.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Impulso, pulsa.

Força instintiva, desejo repentino sem noção de consequências. Impulsividade: palavra chave. A melhor forma de compreender o caminho é se livrar da regra, do roteiro, do óbvio. O bom mesmo é se jogar no desconhecido para acumular experiências. Velho costume de se perder para se encontrar. Luta travada, em segundos, contra o bom senso para se chegar a um momento vago de satisfação. Tão sem fundamento, exatamente por depender de emoções. Instabilidade = Impulsividade?

I M P U L S I V I D A D E: palavra extensa, terminada em DADE. DADE sempre é uma rima pobre. Impulsividade tem origem de um emaranhado de sentimentos insanos, mas nem sempre pobres. Sentimentos por si só são riscos em intensidade. Intensidade é outra palavra terminada em DADE e digníssima. A força instintiva é o suficiente para nos por contra nós mesmos. A impulsividade (inconsciente) nos permite realizar ações sem medo. Quem diria: atitudes imaturas e destemidas saindo de um único corpo tomado por um estado súbito de euforia que faz transbordar a felicidade. Outra palavra da família DADE. Singela, com flores no F e desenho de pássaros entre o A e E.

São tantos estados permitidos a partir da impulsividade alheia que se pede o foco. Correr no escuro é equivalente a essas observações em conjunto, eu diria. Correr é uma ação de impulso que pode não levar a lugar algum. Talvez seja necessário recomeçar do zero, eu diria.

recomeçar do zero, eu diria.
recomeçar do zero, eu diria.
recomeçar do zero, eu diria.
recomeçar do zero, eu diria.
recomeçar do zero, eu diria.


*se não faz sentido para você que lê, imagine para mim que cria. Estou a base de entorpecentes literários, então, não enche.* Culpa do Júlio Cortázar...