domingo, 20 de junho de 2010

Desabafo. (?)

"E hoje o sol nasceu declarando o fim dessas lágrimas"



Eu me sentia toda vida, toda energizada , na iminência de explodir. Talvez, seja a melhor experiência que alguém poderia me proporcionar. Acho que alguma divindade estava movendo as mãos, pois pela primeira vez me senti verdadeiramente amada e alguém tão humano é incapaz de amar de tal maneira.Era como se fosse outra Madalena, mas dessa vez completa enfim.

Foi um momento eternizado na minha carne, no meu templo. Eu queria dar continuidade a nossa ligação. Eu sonhava em te ter por inteiro por todos os dias da minha vida como nos filmes românticos. Eu simulava nossas conversas só para ter a certeza de que tudo iria acontecer com perfeição. Eu amava teus olhos nos meus dizendo o quanto a vida era cruel, mas que no fim a gente iria fica bem. Até acreditei em algumas palavras suas mesmo contra minha vontade.

Foi no meu vazio que você tocou e manchou. Eu realmente não gosto de admitir isso. É demais para mim! Você me usou como se fosse um peça de roupa velha e surrada. Eu não devia ser a maçã envenenada da história. Eu não podia ser a Amélia. Agora só lembro dos beijos, blues e poesia e do nosso fim tão óbvio. Será que eu precisava viver tudo isso para cair em mim? Você não me quer bem. Eu não te quero tão bem também. Eu não posso gostar de você. Você não gosta de mim. E PONTO.

*Dedico ao meu menino dos olhos.
Obrigada por tudo o que você foi,
mas hoje, eu simplesmente sou.

sábado, 12 de junho de 2010

Júlio Cortázar

Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

Júlio Cortázar

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Bonecas


Janaína tinha vergonha de dizer que gostava de menina. Sempre que segurava a mão de suas amigas lhe faltava o ar. Ela fingia ser como as outras mocinhas, mas nem sempre conseguia. Brincava de boneca com Malu e Júlia em sua casa todas as tardes, mas Janaína queria brincar de boneca na vida real também. Janaína gostava de Mallu. Mallu não sabia se gostava de alguém e Júlia gostava das duas e de Edu. Júlia brincava com menino e menina. Mallu não sabia se queria brincar. Janaína quer que Mallu aprenda. Mallu é sexy e tem seios. Janaína não é nenhum pouco bonita e quer todo o corpo de Mallu. Júlia tenta convencer Janaína que isso é normal. Janaína não sabe quem é, só sabe que Mallu tem lindas pernas. Mallu fugia das bonecas todas as tardes e Janaína se confundia com questões básicas da filosofia. Júlia era perversa. Mallu sabia. Janaína sabia. Mas Janaína achava que queria. Mallu lutava com todas as forças contra as bonecas. Júlia era manipuladora. As amigas se sentiam diferentes. Janaína apertava a mão de Mallu. Apertava a cintura de Mallu. Mallu chorava. Júlia ria. Janaína sonhava. Júlia beijava Edu. Mallu assistia horrorizada. Janaína acalmava Mallu. Mallu abraçava Janaína. Janaína insistia no jogo das bonecas. Mallu era fraca. Cedeu. Cedia. Janaína e Mallu passaram a brincar todas as tardes. Júlia coordenava o jogo. Edu cuidava metodicamente das bonecas. Mallu beijava Júlia, Júlia beijava Janaína, Janaína beijava Edu a força e Edu beijava as três. Definitivamente, as vezes, brincar de boneca rende.

Philia.

"eternamente é palavra muito dura: tem um T granítico no meio. Eternidade: pois tudo o que é nunca começou. Minha pequena cabeça tão limitada estala ao pensar em alguma coisa que não começa e não termina — porque assim é o eterno"

Eu não sei viver de momentos muito longos. Até na felicidade eu ponho defeito. O bom da felicidade é que ela é mais momentânea que eu e assim sendo, busco-a incessantemente para o tédio não me ganhar. Sou temporária até nos meus amores e isso me faz bem. Se meus estados físicos e psicológicos são diversos entre si, imagine meu coração? Ele brinca de faz-de-conta a toda hora. Meu coração não para de renovar amores e criar paixões. Isso me faz bem.

O desapego me rende experiências incríveis, coisas absurdas, surreais, tão intensas que canso ao tentar detalhá-las aqui. Prefiro assim, entende? Acho que meu coração tem medo de encontrar a paz e estabiliza-se numa felicidade longa, contentar-se com a sistematização do bem-estar, manter-se batendo em função de um único ser. Não me reconheceria em mim se me apaixona-se por um único homem. Eu gosto de amar vários, amar todos, amar os diversos.

Acho que amo o mundo inteiro dentro de mim e fora também. Transbordo de amores por todos os lados, mas nem assim consigo me manter amante por muito tempo. Às vezes eu sou a megera da história para não cair no abismo da eternidade. Sou infiel com minha alma para não ser dominada pelos suas fraquezas e ceder suas vontades. A vontade da minha alma é encontrar a serenidade, já a minha, é ser um vulto no tempo.

Minha confusão surge quando eu não sei diferenciar a voz que fala mais alto: a minha ou da minha alma. São vozes com a mesma nascente e tons parecidos. Vozes no mesmo corpo confundem, obviamente, concorda? Nem sempre sei quem quer o que e então vivo numa constante odisséia. Isso me faz bem, não acha? Pelo menos é odisséia, não eternidade.

A saga de Édipo (decifra-me ou devoro-te?)



Na antiguidade, o mito foi usado pelo dramaturgo Sófocles na tragédia Édipo rei, para uma reflexão sobre as questões da culpa e da responsabilidade dos homens perante as normas e tabus. Um resumo desse relato mítico, que é a causa do nome do blog:

(retirado do livro de Gilberto Cotrim, Fundamentos da Filosofia)

Laio, rei da cidade de Tebas e casado com a bela Jocasta, foi advertido pelo Oráculo (resposta que os deuses davam a quem os consultava) de que não poderia gerar filhos. Se esse aviso fosse desobedecido, seria morto pelo próprio filho e muitas outras desgraças surgiriam.

A princípio, Laio não acreditou na profecia do oráculo e teve um filho com Jocasta. Quando a criança nasceu, porém, cheio de remorso e com medo da profecia, ordenou que o recém-nascido fosse abandonado numa montanha, com os tornozelos furados, amarrados por uma corda. O edema provocado pela ferida é a origem do nome Édipo, que significa “pés inchados”.

Mas o menino Édipo não morreu. Alguns pastores o encontraram e o levaram ao rei de Corinto, Polibo, que o criou como se fosse seu filho legítimo. Já adulto, Édipo ficou sabendo que era filho adotivo. Surpreso, viajou em busca do oráculo de Delfos para conhecer o mistério de seu destino. O oráculo revelou que seu destino era matar o próprio pai e se casar com a própria mãe. Espantado com essa profecia, Édipo decidiu deixar corinto e rumar em direção a Tebas. No decorrer da viagem encontrou-se com Laio. De forma arrogante o rei ordenou-lhe que deixasse o caminho livre para sua passagem. Édipo desobedeceu às ordens do desconhecido. Explodiu, então, uma luta entre ambos na qual Édipo matou Laio.

Sem saber que tinha matado o próprio pai, Édipo prosseguiu sua viagem para Tebas. No caminho deparou-se com a Esfinge, um monstro metade leão, metade mulher que lançava enigmas aos viajantes e devorava quem não os decifrasse. A Esfinge atormentava os moradores de Tebas. O enigma proposto pela Esfinge era o seguinte: “Qual o animal que de manhã tem quatro pés, dois ao meio-dia e três à tarde?” Édipo respondeu: “É o homem. Pois na manhã da vida (infância) engatinha com pés e mãos; ao meio-dia (na fase adulta) anda sobre dois pés; e à tarde (velhice) necessita das duas pernas e o apoio de uma bengala”.

Furiosa por ver o enigma resolvido, a Esfinge se matou. O povo tebano saudou Édipo como seu novo rei. Deram-lhe como esposa Jocasta, a viúva de Laio. Ignorando tudo, Édipo casou-se com a própria mãe. Uma violenta peste abateu-se então sobre a cidade. Consultado, o oráculo respondeu que a peste não findaria até que o assassino de Laio fosse castigado. Ao longo das investigações para descobrir o criminoso, toda a verdade foi esclarecida. Inconformado com o destino, Édipo cegou-se e Jocasta enforcou-se. Édipo deixou Tebas, partindo para um exílio na cidade de Colona.