sábado, 15 de maio de 2010

pseudo vida.

Ler me deprime. Eu me envolvo demais com os personagens e quando menos espero, já estou sofrendo por eles. É uma dor aguda que perfura pele, carne, músculo, ossos e alma. As vezes penso que sou masoquista mesmo, pois livros instigam o máximo da minha agonia e do meu prazer. Eu não consigo viver sem um livro; ciclo vicioso. Quanto mais, melhor. Me excita, me perpetua, me tira o fôlego e me leva a loucura.

Acho que o melhor fato de existir é saber como outras pessoas podem existir. Não. Me corrijo: O melhor fato de existir é saber como outras pessoas vivem. Existir é muito fácil. Existir é simplesmente estar. Eu sei que eu existo e ocupo lugar no espaço, mas VIVER, não. Eu não vivo. Eu vivo dos personagens que conheço, das pessoas que imagino, das palavras encadeadas. Eu vivo das sensações alheias. Sou reduzida a pó quando leio as aventuras (e desventuras) das grandes pessoas que vivem.

O herói que luta, a nordestina que sofre, a mocinha que chora, o poeta que ama, tudo me leva a crer que viver vai além de obedecer uma rotina óbvia e ceder às regras. Viver é mais que se entregar ao sopro do vento; viver é está vivo. Estar vivo é ser pulsante. Ser pulsante é... eu não tenho definição para ''ser pulsante''. Só sei que pulsa. E eu sei de alguma coisa, por acaso? Eu só sei que nada sei e que só estou aqui por um equívoco de Deus. Do mesmo modo que Deus errou em criar o rinoceronte em sua feirura tamanha, errou também em deixar-me existir por existir, sem menor pretensão de vida.

Permanecer em estado de vida é um desejo ambicioso e fugaz. É demais para a minha pouca vontade de insistir. Fugaz, sim, pois não noto quando deixo de viver; é uma passagem natural e gradativa. Só percebo que não estou viva em alguns estalos de realidade sóbria. Mas a sobriedade passa e recomeça uma realidade embebida de fantasias, criações, sensações alheias.

Existir é longínquo e quase eterno.
Viver é muito breve e bem de perto.

ANTÍTESE. OPOSTO.

Eu absorvo a vida dos personagens, assim como um parasita faz com o hospedeiro. Eu consumo as entrelinhas, os parênteses, o climáx... eu consumo as vírgulas, mastigo devagar as reticências. Me jogo numa história que não é minha, num viver que não é meu, numa existência que não me pertence e fico muito contente. Satisfeita ao extremo, mesmo. Acredite. ''Vivendo'' dessa forma eu me sinto pulsante. Quer dizer, minha alegria só dura até a última página. Quando termino o livro me vem o vazio (que já conheço de longa data). Um oco irreconhecível. A dor aguda que tanto falo. Corrói meu sistema nervoso, minha saúde mental. Embrulha o estômago. Como podem me dar uma vida (a que eu tanto sonhei) e me tirar assim... em um virar de página!? Imperdoável! Então caio em pranto. Minha desgraçada existência tende a me puxar para a sobriedade que surge e eu teimo em viver a vida alheia. Inicia-se a briga com meu interior. Eu sempre perco para mim mesma. Eu me perco em mim e só me acho em livros. Eu perco a noção do que sou só para sentir o que o outro é. Eu.. eu.. eu... eu... eu... eu esqueço que eu só existo por existir e que meus personagens sempre vão me abandonar. Tenho que trabalhar o desapego. Aprender a esquecer minhas vidas paralelas e deixar minha existência tomar meu corpo.

Eu.
Eu.
Eu.
Eu simplesmente não vivo.

Existo.
(e insisto?)

8 comentários:

Davi Rocha :D disse...

realmente quando eu acabo um livro, também sinto um vazio imenso, depois de viver várias aventuras com os personagens,desvendar mistérios com eles. Querendo entrar no livro ou simplismente transformar esses personagens que viraram amigos em pessoas reais, o livro acaba e os personagens (amigos) se vão, e depois que eles se vão, o unico jeito é começar um novo livro, para preencher o vazio deixado por eles. :D

Patricia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Patricia disse...

Meu Deus, como isso é profundo!!!
Como vc, me envolvo demais no que vc escreve e SINTO...
Giu, o que posso te dizer?
(até sei o que te dizer, mas...)

Sinta o meu forte abraço!
Bjoooooooooo

Leonardo disse...

Achava que nao era possivel sentir agonia e prazer juntamente. Sao coisas tao opostas e tao "contra" uma da outra; tao distantes... Nao conseguia pensar no "apice" de ambas... Nao consigo imaginar esses dois sentimentos sendo um tao forte quanto o outro. Nao conseguia pensar que alguma coisa pudesse instigar ambos.

Mesmo sem senti-los, mudei de ideia. ;x


[LeoBrasil]

giu batista disse...

adorei teu comentário, leo brasil! haha

reflexivo.
devoro-te.

Caio disse...

Nossa você sabe mesmo como ler um livro viu!
O Excesso de concentração causa isso,significa que tu gosta muito e até transfere os sentimentos para si!
Uma observação legal no comentário:"melhor fato de existir é saber como outras pessoas vivem"
Fofoqueira?
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Bincadeira,mas legal essa tua característica de interpretar o próprio personagem na aventura!
Cria um heterônimo:Ficaria legal!

giu batista disse...

;D

Pri disse...

A pessoal vai se informar direito. Porque vocês não vão fazer esses comentários para os fabricantes de cigarro e bebida¿.... Vai saber mais quantas pessoas o tráfico de drogas mata.Vais pesquisar sobre o sistema dos países de primeiro mundo,onde é legalizado. Isso é julgar o pensamento e a escolha de vida de um ser humano.E quem é você para julgar.O que você faz para melhorar o planeta¿¿Isso.....