sábado, 22 de maio de 2010

Júlia




Júlia não queria sofrer pela abandono de Carvoliva. O violeiro vagabundo com seus cabelos encaracolados tão escuros quanto as águas que banham a cidade, fugindo de São Francisco: definitivamente, não era a imagem que ela queria guardar. Seu primeiro e único amor estava indo embora sem ao menos deixar um bilhete no costão. Júlia caia em depressão.

Não era uma mulher bonita, porém muito elegante e assim, atraente. Sabia tocar piano e escrevia poesias. Era a poetisa da cidade e publicava muitos artigos nos jornais. Talvez fosse a única mulher pensante de toda São Francisco e por isso, era tão temida pelos homens. Uma mulher que entendia sobre política, que escrevia poesias e críticas nos jornais, que ousava nas roupas e pintava os cabelos, que defendia ferrenhamente a monarquia e o imperador era uma ameaça a qualquer homem em sã consciência. Talvez Carvoliva pensasse assim. Talvez Carvoliva fosse um grande covarde.

Ele, por várias vezes, jurou amor eterno e dizia ser capaz de enfrentar os boatos da cidade maldosa para ficar com Júlia. Mentiras sinceras não interessam a Júlia. Ela era uma mulher firme, inteligente e não gostava de esperar e quando, por exceção, esperou Carvoliva por os riscos desse amor impossível no papel, decepcionou-se. Ele fugiu do destino como um rato. Patético e humilhante.

Júlia passou cinco dias de cama em seu quarto. Não comia, não falava e nem abria a porta. No terçeiro dia sua mãe começou a rezar e aglomerar amigos e vizinhos dentro da casa. No quarto dia aceitou alguns biscoitos e água. No quinto dia chamou sua melhor amiga para reunir as pessoas queridas ao meio-dia. Quando o sino da igreja tocou, preciso e certeiro, Júlia abriu a porta do quarto e surgiu com seu melhor vestido. Estava usando a gargantilha preferida. Estava fraca e pálida, tinha dificuldades de andar mas era resoluta.

- Digam ao Comendador que casarei com ele, assim como deseja.

E então se fez. O Comendador logo marcou a data da cerimônia com receio da desistência da noiva. Júlia casaria, para a felicidade de sua mãe, com o homem mais rico e admirado de São Francisco. Era um português que adotou o Brasil como verdadeira pátria. 30 anos mais velho que Júlia, amigo do Imperador, homem de negócios, político, monarquista e personalidade ilustre de toda Santa Catarina. Ele se deixou seduzir pela delicadeza dos versos da poetisa e pensou que seria fácil tornar aquele sentimento recíproco. O tempo poderia trazer o amor para o casal. Mas Júlia jamais deixou Carvoliva sumir de seu pensamento... Apesar de todos os mimos e portas que o Comendador lhe trazia, Carvoliva sempre foi a vida da jovem moça. Carvoliva, um dia, foi o motivo dos versos de Júlia... e hoje é a razão por qual ela não escreve mais. Ele destruiu a sensibilidade e beleza que havia em sua alma. Carvoliva viveu em Júlia e a matou logo em seguida, como um sanguessuga. Júlia morreu de solidão, desgosto e amor.

Sobre o livro:

" O romance se passa no século XIX, na Ilha de São Franscisco,em Santa Catarina. Apesar do livro ser mais introspectivo, centrado na protagonista Júlia e em sua vida, as informações históricas da época mostram as divergências entre monarquistas e republicanos em uma cidade pequena. Júlia, a íncrivel protagonista da história era tida como uma mulher a frente do seu tempo, famosa por suas poesias e sua personalidade forte. Casou-se com o Francisco, homem rico e respeitado, em virtude da decepção amorosa que teve com Benjamim Carvoliva – violeiro e republicano -, que apesar de amá-la, a deixou sem explicações. Carvolia define Júlia como dona de “olhos sempre carregados de uma profunda tristeza que ela procurava vencer com a vivacidade do espírito”. Júlia pode ser considerada uma mulher ingênua, por lutar por sua felicidade às cegas, mas com uma determinação admirável. O livro reserva muitas surpresas sobre essa mulher incrível e sua vida, já que a história de Júlia Maria da Costa é verídica. O livro apresenta os fatos sob o olhar de Júlia, do Comendador e de Carvoliva, entretanto, o último capítulo surpreende ao leitor que busca respostas, e nos faz imaginar como Júlia viveu aqueles 11 anos literalmente sozinha."

Júlia da Costa - QUEM FOSTE TU?

Júlia Maria da Costa (Paranaguá, 1 de julho de 1844 — São Francisco do Sul, 2 de julho de 1911) foi poetisa e escritora de crônicas-folhetins brasileira.

Casada, em 1871, por conveniência e imposição familiar, com um homem rico e trinta anos mais velho, Júlia da Costa amou o poeta Benjamin Carvoliva, cinco anos mais novo. Correspondia-se com ele quase que diariamente durante o namoro e, quando casada, em segredo.

Em uma das cartas, que eram colocadas em esconderijos diversos, tais como o oco de uma velha árvore, Júlia sugeriu uma vez que os dois fugissem, mas quem fugiu foi Carvoliva perante a ousadia da poetisa. Desiludida, Júlia passou a escrever, febrilmente, poemas cada vez mais desesperançados e melancólicos, começou a freqüentar mais e mais serões e festas, a pintar os cabelos de negro (em uma época em que somente meretrizes e artistas o faziam), o rosto, a usar muitas jóias, a participar de campanhas políticas e a publicar em jornais e revistas, tornando-se uma lenda viva em sua pequena cidade.

A solidão se tornou cada vez maior depois da morte de seu marido, que a habituara a receber catarinenses ilustres em banquetes e saraus, em um dos quais esteve presente o Visconde de Taunay. Viúva, cansada das festas, Júlia da Costa fechou-se em casa com manias de perseguição. Durante o tempo em que permaneceu enclausurada, planejou escrever um romance e, para tanto, confeccionou painéis coloridos com cenas campesinas, interiores de lar e paisagens inspiradoras que espalhou pelas paredes.

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