sábado, 30 de janeiro de 2010

Straight Edge - a ideologia.



A idéia surgiu com o início da cultura punk, no meio de jovens de culturas distintas que simplesmente não queriam fazer uso de drogas ou de bebidas alcólicas para se divertir. Na verdade, os motivos para adotar o Straight Edge variam conforme a pessoa. O motivo básico por trás da existência do sXe é o de desassociar o hardcore da auto-destruição, violência, danos à saúde ou quaisquer outros malefícios causados pelas drogas, e favorecer a possibilidade de que uma pessoa que prefere não se drogar possa ser "tão punk" quanto qualquer um. O Straight Edge contesta a idéia de que beber, fumar ou se drogar são por si só atitudes rebeldes.

A mídia e a cultura jovem vêm há décadas propagando esta idéia, de modo que até mesmo o punk no começo (em grande parte) via o consumo de drogas como parte integrante de um estilo de vida alternativo. O Straight Edge não concorda com esta associação. Algumas pessoas acreditam que sua conduta sexual tem algo ver com o Straight Edge (além de não usar drogas, você não pratica sexo "promíscuo", "irresponsável", ou "casual"), outras acham que sexo e sXe (abreviação de Straight Edge) não têm absolutamente nada que ver um com o outro. Há quem ache que hoje em dia, por definição, o Straight Edge tem que ser vegetariano, mas a existência de adeptos comedores de carne contesta isto.

O Straight Edge surgiu aproximadamente em 1980, entre a cena punk de Washington. Os membros de uma banda chamad Teen Idles , todos menores de idade, odiavam o fato de que, por causa do consumo de álcool, quem ainda não tinha 18 anos não podia frequentar a maioria dos shows punks da cidade. E o pior de tudo, eles nem mesmo queriam beber. Ao contrário da esmagadora maioria dos punks da época, os Teen Idles não achavam que a atitude niilista e auto-destrutiva associada ao consumo de álcool e drogas eram uma obrigação do movimento. Ao mesmo tempo em que as drogas e o álcool eram exaltados no punk da época, para os Teen Idles, seu abuso só trazia coisas ruins ao movimento: menores de idade eram excluidos dos shows pois as casas vendiam álcool, bêbados sempre causavam brigas, membros talentosos e inteligentes de bandas morriam ou se tornavam zumbis apáticos de tanto se drogar, e por aí vai. Para eles, parte da atitude "faça você mesmo" do punk envolvia o indivíduo ter pleno controle de seu corpo, mente e atitudes, e para isso as drogas eram um obstáculo. Então, em torno da banda, toda uma turma de jovens punks foi se formando, e algo como um "mini-culto" foi surgindo. No Brasil, Em 1989 foi formada em São Paulo a primeira banda “Straight Edge” nacional, o Energy Induct, que, no entanto não chegou a gravar ou fazer shows. Um de seus membros fundou anos depois o fanzine e selo Liberation e integrou a banda Point of No Return. O No Violence, fundado também em 1989 também foi uma das primeiras bandas nacionais a ser associada ao movimento, mas nem todos os membros eram adeptos da idéia.No entanto, os primeiros exemplos inteiramente “Straight Edge” só apareceram em 1993 com as bandas Positive Minds e Personal Choice (encabeçada pelo atualmente controverso Fabio 'Nene' Altro, atual vocalista do Dance of Days). Poucos anos depois, o Positive Minds se transformou no Self Conviction, outra banda fundamental no início da cena no país. Todas essas bandas compartilharam membros e alguns deles formariam em 1996 o Point of No Return, que durante sua existência foi a mais conhecida e atuante banda “Straight Edge” do país.

Um belo dia, a banda Teen Idles estava fazendo o lay out da capa de seu primeiro (e único) disco, o compacto "Minor Disturbance",, e o baterista Jeff Nelson pegou um esquadro (aquela régua em forma de triângulo) e, meio brincando, comparou a retitude e os ângulos retos do objeto com sua postura firme e "careta" de vida. Esquadro em inglês é "straight edge", e dessa maneira, Nelson apelidou a turma de punks "caretas" de "Straight Edge Punks". Pouco depois, no final de 1980, os Teen Idles acabaram, e dois membros , Jeff Nelson e Ian Mckaye formaram uma nova banda , que iria levar o Straight Edge um passo além. Ian Mckaye conta que queria chamar a nova banda de "Straight Edge", o que os outros membros vetaram. A banda então, se chamou Minor Threat . Após poucos meses, eles lançaram seu primeiro compacto (por sua própria gravadora, a Dischord) onde havia uma música chamada "Straight Edge" cuja letra resumia o estilo de vida adotado pela banda:

STRAIGHT EDGE
Eu sou uma pessoa como você
Mas tenho coisas melhores para fazer
Do que ficar sentado e foder a minha cabeça
Andar com mortos vivos
Cafungar merda branca para dentro do nariz
Desmaiar nos shows
Nem mesmo penso em bolinhas
É algo de que eu simplesmente não preciso

Eu tenho o Straight Edge

Eu sou uma pessoa como você
Mas tenho coisas melhores para fazer
Do que ficar sentado e fumar maconha
Porque sei que posso lidar (com a vida)
Rio de pensar em tomar tranquilizantes
Rio de pensar em cheirar cola
Sempre estarei em contato
Nunca quero usar uma muleta

este, e todos os outros discos do Minor Threat se tornaram clássicos do punk rock e ajudaram a definir o hardcore. Como a banda se tornou uma das mais populares do underground norte-americano, fazendo turnês e tendo seus discos distribuidos por todos os EUA, logo a idéia do Straight Edge se espalhou muito além dos limites de Washington D.C., e outras bandas e pessoas adotariam a postura, inicialmente nos EUA, e após alguns anos em países de todos os continentes.

Apesar de nestes anos todos ter visto traduções muito ruins, só há dois caminhos a seguir para saber o que o nome significa em português ao pé da letra: um é o esquadro, que citamos acima. Outro, menos literal, mais poético, é a partir dos termos Straight e Edge. Edge, além de beirada, limite, significa também raiva, nervosismo, enfim um sentimento intenso. E "Straight" além de significar "reto" literalmente, também quer dizer "careta" (no sentido de "livre de drogas"), "correto", "direito", "quadrado". A partir daí, podemos ver como o termo adquiriu, talvez sem querer, uma interpretação diferente, algo como uma "raiva careta". Ou seja, a mesma "raiva", o mesmo "edge" do punk, mas uma raiva careta, sem drogas. Ou, em inglês, um "straight edge". Mas a tradução mais correta, precisa e objetiva sempre será a historinha do esquadro.

O X, adotado como símbolo universal do Straight Edge, tem a seguinte origem: os Teen Idles, em 1980, fizeram uma viagem à Califórnia, onde tocaram dois shows (em Los Angeles e São Francisco) e ganharam no total, a fortuna de 45 dólares (hehehe, punk é isso aí). Em São Francisco, a casa onde eles tocaram, tinha a política de deixar menores de idade entrar desde que eles tivessem suas mãos marcadas por um X de pincel atômico. Desta forma, o barman saberia quem poderia e quem não poderia comprar bebidas alcoólicas. Os Teen Idles acharam a idéia engraçada (e útil, pois dessa forma todos poderiam ver o show) e levaram ela de volta a Washington. Lá, sugeriram aos donos de casas noturnas que fosse feito o mesmo, para que os menores pudessem entrar. Mas, como ironia, demonstrando que não só não podiam, como tampouco queriam beber, muita gente começou a fazer o X espontaneamente, e mesmo quem era maior de 18 continuou usando, tanto para expor sua postura, quanto para demonstrar solidariedade aos menores. Com o tempo, o X acabou por se tornar o símbolo do Straight Edge, indo parar em nomes e logotipos de bandas, camisetas, tatuagens, etc.

A maioria dos Straight Edgers (no Brasil, quase todos) são vegetarianos, mas esta é apenas uma idéia adotada pelos Straight Edgers, não uma parte do Straight Edge em si. O vegetarianismo é uma idéia bastante discutida dentro do punk/hardcore, por diversas bandas, sXe ou não. Ian Mckaye, vocalista do Minor Threat, é vegetariano desde o início dos anos 80, mas nunca abordou isso em suas músicas, ainda que fale sobre o assunto em entrevistas. bandas punks/HC como Crass, Conflict, Antidote, MDC, Oi Polloi, Cro-Mags e muitas outras, já se manifestavam de alguma forma contra a matança de animais, antes da primeira banda sXe tocar no assunto. Portanto, é mais coerente falar do vegetarianismo como uma causa comum a todo o lado mais politizado, ou idealista do hardcore/punk, não apenas ao sXe. Na segunda metade dos anos 80, a banda Youth Of Today (uma das mais importantes bandas sXe de todos os tempos), passou a difundir o vegetarianismo, em suas músicas, camisetas e ntrevistas. Com eles, muitas outras bandas da época (Insted e Gorilla Biscuits por exemplo), aderiram e logo o vegetarianismo se tornou uma tendência dominante dentro do Straight Edge. Com o tempo, os direitos dos animais foram se tornando mais e mais importantes na cena sXe mundial, e foram surgindo bandas Straight Edge cujo propósito principal era difundir o vegetarianismo e o veganismo.

A relação entre o sXe e a política é basicamente a mesma que ocorre no resto do punk rock. Uma postura libertária e crítica ao status quo e aos valores da sociedade estão quase sempre presentes, e quando bandas ou pessoas assumem uma posição mais definida ou militante, é quase sempre nos quadros do socialismo ou anarquismo. O que acontece também é que a mentalidade de cada lugar se reflete no sXe, e isso diz respeito tanto às tradições do país, quanto às da cena punk local. Por exemplo, no Brasil, o cenário Straight Edge tem a tradição de ser mais politizado do que na maioria dos outros países, em especial os EUA. Isso talvez se dê pelo fato de que toda a cena punk no brasil sempre foi mais politizada que a dos EUA, além do fato de que por aqui as contradições sociais são mais evidentes.

Ao contrário do que muita gente acredita, a grande maioria dos Straight Edgers é ateísta ou agnóstica e não aprova a associação da religião com o hardcore. No entanto, há algumas pessoas que associam a postura sXe com suas crenças religiosas, especialmente no caso da religião Hare Krsna.

adaptação de http://www.anarco-punk.hpg.ig.com.br/hardcorepunk/sXe.html

6 comentários:

Iago Barreto disse...

Esse é um tema bastante interessante o qual já estudei sobre no wikipedia, e mais ou menos uma semana atrás reli e coneversei com um amigo sobre (você conhece, o Fp).
Acho interessantíssima a idéia do movimento, que associa a cultura punk (ou contra cultura) à total abstinência ao álcool, ao tabaco e também à drogas proibidas. Na teoria eu ajo como um, pois associo as idéias da cultura punk/hardcore, ao tempo que cultuo a abstinência às drogas (incluindo-se aí as proibidas e não proibidas), mas na prática não saio andando com um X (ou três) na mão por aí, embora considere a idéia admirável.

- giiiiiiiiu. disse...

pois é; eu conhecia essa parada só por nome mesmo, mas não tinha conhecimento do que se tratava. Vi uma entrevista com uma banda e o termo straight edge foi muito citado ai parei pra pesaquisar.. e achei incrível as idéias e o modo comportamental dessa galera! de certo modo eu também participo do movimento, pelos mesmos motivos que tu, pois nao uso nenhum tipo de droga e mais que nunca eu quero me livrar de bebida de vez. Achei bacana e tem muito a ver com meus conceitos. Acho também que o X nas mãos é algo até importante, pq intriga as pessoas e desperta a curiosidade e a idéia vai acabar se difundido, mas não penso em usa-los, pelo menos ainda.

Caio disse...

Muito massa!
A Giu prova que pesquisar faz bem,você realmente fica conhecendo a raiz disso tudo,e exingue preconcetios a um estilo de vida!

Caio disse...

Mandou bem no novo design do blog!

L30 disse...

nao sabia de mt coisas...obrigado pelas informacoes 'xD

Lego disse...

O cara do Dance of Days! hahaha. quem diria! Sempre gostei dessa idéia deles.