quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Cotidiano


Abre os olhos. Boçeja. Vê o teto. Escuta o tic-tac do relógio. Respira fundo. Levanta. Vai ao banheiro. Encara o espelho. Não gosta do que vê. Liga o chuveiro. Demora no banho. Pega a toalha e volta pro quarto. Senta na cama. Espera algum sinal de vida rondando por ali. Não encontra ninguém. Demora mais um pouco. Passatempo. Passa um tempo.

Decide ir para a sala. Não há nada ali. Vai para o sofá. Liga a tv. E não há nada pela tv também. Muda de canal. De novo. E de novo. Sente fome. Mas tem preguiça. Levanta mais uma vez. Toma café gelado. Pega um livro qualquer. Lê a primeira página.

Não gosta da história. Não gosta de livros. Não gosta de filmes. Não gosta de praia. Não gosta de teatro. Talvez goste de tudo, sim. É, gosta. Só não tem o hábito de praticá-los. Hábito ou tempo. Tanto faz.

Confere o celular. Lê e-mails. Começa a pensar no programa do dia: trabalhar, trabalhar e trabalhar. Lembra do relógio. Põe no pulso. Marca a hora: 8:00h. Mais 1 hora o sossêgo acaba. O tédio também acabará em 1 hora.

Volta para o sofá. Olha para a janela. Tem o céu, o mar e pessoas no lado de lá. Sorri da garotinha que caiu na beira da praia. Entra em transe. Pensa no seu futuro. Lembra dos sonhos. Reflete sobre as realizações.

Acha melhor tentar entender a pintura da parede à frente. Todos os dias faz uma interpretação diferente do quadro. Encosta a cabeça na sua preciosa mobília. Nota cada detalhe da sala. Cai uma lágrima. Duas. Três. Vê o seu reflexo na mesinha de vidro. Quatro ou cinco.

Se toca no chão frio.Lembra daquele velho cd. Escuta a primeira música. Não agrada. Escuta a segunda. Seis e sete. Na terçeira faixa, sorri. Oito. Nove. Muitas. A música era encantadora. E depressiva, claro. A música. Há música. Fica sem as sandálias. Sente o chão frio. Senta no chão frio. Deita no chão frio. Tem ataque de riso no chão frio. E depois de choro.

Consulta o relógio mais uma vez. 8:45h. Respira. Engole as lágrimas. Volta pro quarto. Tira a roupa. Põe outra roupa. Ri da roupa. Não gosta da roupa. Penteia o cabelo. Já é hora de viver, enfim. Viver é trabalhar. Vê o sangue correr. Organiza meia dúzia de papéis e sai para ser feliz. Passando o tempo. Passou o tempo.

Um comentário:

Neto disse...

Pena que o protagonista da história não pode olhar teu blog pra passar o tempo...
Tu escreve bem ó!
Futura jornalista vc!