domingo, 17 de maio de 2009

bilhete de cinema.


Imagino o que pensarão sobre mim quando eu morrer. Todo dia reflito e tomo atitudes para que não descubram nada sobre o que fiz durante esses longos anos. Costumo escrever em códigos, largar mensagens pelos cantos, rasgo fotos, jogar no lixo as cartas... tudo com a finalidade de não deixar pistas sobre o que sou ou o que fiz. Nunca fui de encontro as leis e não tenho muito o que esconder. Porém detesto saber que um dia irão mexer no meu quarto e revirar minhas lembranças.

É muito incomodo apagar a metade da sua vida por não confiar em deixa-la aberta a todos; um dia. Guardo inúmeros bilhetes de cinemas, papéis de bombons, notas fiscais de lanches, cópias dos ingressos de shows... e sinto uma palpitação ao pensar que ''meus bens''estarão nas mãos dos familiares, dizendo:

- Como ela era infantil! guardava tantas bobagens... sempre foi um anjo!

(Independente da pessoa, quando esta vem a falecer, sempre vira um anjo. O maior bandido torna-se um anjo ao morrer no tiroteio). São tolices. E são a minha vida. São os recortes de jornais, pedaços de gente e migalhas de atenção que fazem minha suposta felicidade. Poderia trocar a palavra ''felicidade'' por ''dia-a-dia'', mas o que seria a felicidade se não viver o dia-a-dia ? Nesse caso, tornam-se sinônimos. É sempre assim: uma coisa liga a outra. Tudo vira sinônimo.

Ainda insisto em temer meus segredos revelados. Imaginem só, quando descobrirem minhas paixões platônicas e crises de identidade? Pensaram que sou louca, que tive uma vida de amarguras. Talvez seja isto. Quem sabe sou louca de pedra mesmo.

Talvez, talvez, talvez... amo possibilidades. Existe coisa melhor que a incerteza? Aquele frio na barriga, excitação, uma aventura a cada instante! Coisas definidas são irritantes, obsoletas... tão coerentes que ficam tolas. É pela incerteza que dedicamo-nos a estudar, trabalhar e amar. Eu estudo para garantir um futuro. Eu trabalho para garantir o sustento. Eu amo para ser amada. E isso é a vida; os recortes de jornais, os pedaços de gente e migalhas de atenção. Se a vida é essa incerteza óbvia e arcaica, diria até inventada;o que seria a morte, então? A paz eterna ? Poupe-me disso. Para que paz? quero queimar por toda eternidade. Preciso queimar para todo o sempre, na vida e na morte, sem esconder meus bilhetes de cinemas.

Nenhum comentário: